ler mais...
21 Março 2010

“Era como se a minha vida dependesse disto”, respondeu Alexandre Rocha. À sua frente estendiam-se algumas das muitas dezenas de jornalistas que se haviam reunido no Champion Course do PGA National Golf Resort & Spa, na cidade de Palm Beach Gardens (Florida, EUA), para assistir a mais uma edição do Honda Classic, importante etapa da FedEx Cup no caminho para o The Masters Tournament. A pergunta era simples: “Diz que precisava de uma ronda destas. Consegue precisar o quanto precisava dela?” Reposta: “Era como se a minha vida dependesse disto. E uma coisa posso garantir: este resultado não é para dedicar a mais ninguém – é para dedicar-me a mim próprio.”

Não admira. Quando, em 2000, Alexandre Rocha se mudou para os Estados Unidos, para estudar na universidade de Mississipi State, rapidamente foi integrado na principal formação da equipa All-American, ao lado de nomes hoje tão incontornáveis como os de Paul Casey, Lucas Glover, Charles Howell III, Luke Donald, Matt Kuchar ou Bryce Molder. No ano passado, e depois de dar por perdida a categoria 11 do European Tour, que lhe permitia o acesso a alguns dos torneios mais importantes do circuito, esteve à beirinha de abandonar a prática profissional do golfe. E só reconsiderou no instante em que, sabida a realização no Rio de Janeiro da Olimpíada de 2016, ficou a saber também que essa seria precisamente a edição em que a modalidade voltaria ao programa (e que, aliás, o próprio Comité Olímpico Internacional pretendia convencê-lo a abdicar da ideia de desistir).
Hoje, volta a ser nele que o Brasil mais aposta quanto a uma presença nacional no torneio masculino dos Jogos desse ano. Embora Adilson da Silva (número 412 do mundo) tenha dominado o golfe masculino brasileiro ao longo da última década, está agora com 38 anos e parece definitivamente concentrado no obscuro Sunshine Tour. Lucas Lee, brasileiro de ascendência coreana, vai começando a fazer carreira no Asian Tour, mas continua na posição 595 do ranking – e, de resto, ainda é muito jovem (22 anos), estando ainda longe da maturidade. Rafael Barcellos venceu o Open do Brasil em 2008, mas a prova (que nem sequer se realizou em 2007 e 2009) não pertence agora a nenhum circuito, pelo que o jogador nem sequer aparece no ranking global. E o mesmo, de resto, se passa com Ronaldo Francisco (ao lado do qual Barcellos representou o Brasil na Taça do Mundo de 2009), cujo triunfo no LG Vivo PGA Championship de 2010 não foi mais do que um brilharete interno.
Pelo contrário, Alexandre Rocha como que renasceu naquele dia na Florida. O Honda Classic foi apenas o seu quarto torneio do PGA Tour, de resto o primeiro desde 2003 – e, para lá chegar, o jogador brasileiro teve de passar uma pré-qualificação, uma longa qualificação oficial e ainda um playoff. Mas entrou no field, suplantou finalmente um cut, acabando a prova no 59º lugar final, com mais de doze mil dólares de prémio – e, sobretudo, brilhou a grande altura no primeiro dia do torneio (66 pancadas, 4 abaixo do par do campo), em que apenas o australiano Nathan Green e o americano Michael Connel fizeram melhor (-5). Dezenas de jogadores do primeiro plano mundial, incluindo Pádraig Harrington, Sergio García, Angel Cabrera, Justin Rose, Vijay Singh, Paul Casey, J.B. Holmes, Justin Leonard ou Mike Weir, entre tantos outros, fizeram pior ou muito pior nesse dia (o detentor do título, Y.E. Yang, fez 79). E estrelas tão brilhantes como Tim Clark, Andres Romero, David Duval, Ben Curtis, Bill Haas ou Woody Austin nem sequer conseguiram chegar ao fim-de-semana, falhando o cut.
“Fiquei surpreendido com a calma e a auto-confiança que senti em campo”, diria Alexandre Rocha no final. “Não estou surpreendido por ter batido bem na bola. Tenho trabalhado muito nisso – e, aliás, nem sequer é a primeira vez que me acontece. Mas, sobretudo, fiquei surpreendido por ter-me sentido bem.” Na sua primeira e brilhante ronda, e apesar de momentos de sorte como aquele em que fez um pull no tee shot do buraco 7 (vendo a sua bola sair out-of-bounds e de repente regressar para o meio do fairway, depois de bater em alguma coisa dura), Alexandre fez muitos greens in regulations, enfiou putts longuíssimos para salvar pars e, principalmente, nunca perdeu a compostura perante as dificuldades com que se deparou. E, embora tenha piorado a sua prestação ao longo dos dias subsequentes (66-76-71-74, num total de +7), o facto é que aquele primeiro dia, em que concentrou a atenção dos media internacionais (que lhe chamaram sempre “Alex Rocca”, por uma questão de facilidade), já ninguém lho tira.
Para o golfe brasileiro, foi uma vitória. Posto nas bocas do mundo em resultado do privilégio de fazer de palco ao regresso do jogo às Olimpíadas, o Brasil já tinha os campos (cerca de 110, por esta altura), ainda tinha alguma tradição (nomeadamente seis décadas de Brazil Open, onde venceram jogadores como Sam Snead, Billy Casper, Gary Player, Raymond Floyd, Jarry Pate ou Hale Irwin, para além dos sul-americanos Roberto de Vicenzo ou Angel Cabrera), mas quase não tinha bons jogadores para apresentar desde que Mário Gonzalez abandonara a competição. Nascido em 1939, em Santana do Livramento, Rio Grande do Sul, Gonzalez venceu nove vezes o Campeonato Amador Brasileiro e oito vezes Brazil Open (no qual bateu, por exemplo, Roberto de Vicenzo), conquistando ainda vitórias em países tão diversos como a Argentina e o Uruguai, a Espanha e a Inglaterra, os Estados Unidos e mesmo Portugal. E nunca o Brasil conseguiu encontrar um substituto à sua altura.
No sector masculino, isto é. Porque no sector feminino há já algum tempo que o país tem algum destaque internacional, nomeadamente através de Ângela Park, outra descendente de coreanos que joga agora no LPGA Tour americano, onde ainda não venceu mas já conseguiu 18 top tens (incluindo um segundo lugar no US Women’s Open de 2007) e ganhou para cima de dois milhões de dólares só em prize money. Mas o problema é que, como acontece de alguma forma com Adilson da Silva (que cresceu na África do Sul e jogou quase sempre entre a África e a Europa) e Lucas Lee (que não tardou em mudar-se para a Ásia, onde, até por causa da cor da sua pele, é tido sobretudo como um asiático), Ângela Park é apenas parcialmente brasileira. Nasceu junto às cataratas da Foz de Iguaçú, filha de comerciantes imigrados da Coreia do Sul, mas aos oito anos já estava a viver na Califórnia, apenas jogando agora sob bandeira brasileira em resultado das diligências da Confederação Brasileira de Golfe.
Alexandre Rocha, não: Alexandre Rocha é brasileiro puro e duro, como antigamente se era brasileiro, português, francês ou australiano – é brasileiro nado, iniciado ao golfe e feito adulto. Nascido em 1977 (32 anos) em São Paulo, no seio de uma família de classe média-alta verdadeiramente obcecada pelo jogo, cresceu dentro do São Fernando Golf Club, onde os pais haviam construído casa. Em 2000, quando se mudou para o Mississipi, não falava uma só palavra de inglês – e, entre os restantes jogadores dos diferentes circuitos que já integrou, sempre foi “o brasileiro”, muito mais do que “um jogador que joga pelo Brasil”. Pois hoje, e apenas duas semanas depois de ostentar a posição 711 do ranking mundial, já está nos 400 primeiros (395º), à frente mesmo de algumas estrelas que todas as semanas vemos desfilar nos torneios do European Tour e do PGA Tour, via SportTV Golfe. Ainda não recuperou o seu cartão da primeira divisão do circuito europeu, dividindo-se agora entre o Challenge Tour e o Asian Tour, em que se inscreveu logo depois de voltar atrás com a decisão de abandonar o golfe. Mas, por esta altura, já sonha com os Jogos Olímpicos de 2016 – e, pela primeira vez em vários anos, o Brasil sonha com ele.

 


O GOLFE NO BRASIL

O golfe brasileiro é agora aproximadamente da dimensão do golfe português, ele próprio em franco desenvolvimento. Mas o país é enorme, a atenção do mundo é enorme também – e o novo projecto Golfe Nota 10, aliado ao crescimento do número de campos e driving ranges públicos ou semi-públicos, bem pode vir a dar resultados

ORIGEM: já existiam diversos campos de golfe no Brasil quando, em 1957, o Royal & Ancient Golf Club of Saint Andrews e a United States Golf Association decidiram organizar um campeonato do mundo e convidaram Seymour G. Marvin a representar o Brasil; foi então criada a Associação Brasileira de Golfe, hoje chamada Confederação Brasileira de Golfe (composta por oito federações estaduais ou regionais).
JOGADORES: o Brasil dispõe actualmente de cerca de 20.000 amadores activos, o que representa um aumento cerca de 300 % em dez anos.
CAMPOS: ao longo de todo o país, e em resultado também do aumento do número de condomínios de férias, são já 110 os campos de golfe, o que significa aumento de cerca de 40 % em dez anos
PROJECTOS PARA NOVOS CAMPOS: de Norte a Sul do país, há entre 30 e 40 novos campos planeados, a maior parte deles englobados no desenvolvimento da rede de condomínios do Nordeste.
CASH FLOW ANUAL: entre a prática de locais, o turismo e a alta competição, o golfe brasileiro movimenta agora cerca de 500 milhões de reais (aproximadamente 1,2 milhões de euros).
MEMBERSHIPS E GREENFEES: nos clubes de alto nível, a jóia custa cerca de 100 mil reais (aproximadamente 41 mil euros) e a mensalidade à volta de mil reais (cerca de 414 euros); um greenfee para uma ronda de 18 buracos pode ascender a 210 euros.
DESENVOLVIMENTO DO GOLFE: são já cerca de 20 os campos e driving ranges públicos ou semi-públicos brasileiros, criados com a intenção de captar novos jogadores; a Confederação Brasileira de golfe avançou também, nos últimos anos com a feira Brasil Golf Show e com o programa Golfe Nota 10, destinado à juventude (e para o qual já conseguiu garantir o apoio do Crédit Suisse e da Akzo Nobel).
GRANDES MOMENTOS DO PASSADO: o Brazil Open disputa-se desde 1945, embora com algumas interrupções, tendo já premiado jogadores como Sam Snead, Roberto de Vicenzo, Billy Casper, Gary Player, Raymond Floyd, Jarry Pate, Hale Irwin ou Angel Cabrera; Pádraig Harrington venceu o mega torneio Brazil São Paulo 500 Years Open, em 2000.

FEATURE. J, 21 de Março de 2010

publicado por JN às 23:46
tags:

pesquisar neste blog
 
joel neto

Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974. Publicou “O Terceiro Servo” (romance, 2000), "O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002), “Al-Jazeera, Meu Amor” (crónicas, 2003) e “José Mourinho, O Vencedor” (biografia, 2004). Está traduzido em Inglaterra e na Polónia, editado no Brasil e representado em antologias em Espanha, Itália e Brasil, para além de Portugal. Jornalista, tem trabalhado... (saber mais)
nas redes sociais

livros

"O Terceiro Servo",
ROMANCE,
Editorial Presença,
2000
saber mais...


"O Citroën Que Escrevia
Novelas Mexicanas",
CONTOS,
Editorial Presença,
2002
saber mais...


"Al-Jazeera, Meu Amor",
CRÓNICAS,
Editorial Prefácio
2003
saber mais...


"José Mourinho, O Vencedor",
BIOGRAFIA,
Publicaçõets Dom Quixote,
2004
saber mais...


"Todos Nascemos Benfiquistas
(Mas Depois Alguns Crescem)",
CRÓNICAS,
Esfera dos Livros,
2007
saber mais...


"Crónica de Ouro
do Futebol Português",
OBRA COLECTIVA,
Círculo de Leitores,
2008
saber mais...

arquivos
2011:

 J F M A M J J A S O N D


2010:

 J F M A M J J A S O N D


2009:

 J F M A M J J A S O N D


2008:

 J F M A M J J A S O N D


2007:

 J F M A M J J A S O N D