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15 Maio 2010

Rory McIlroy, Ryo Ishikawa, Rickie Fowler, Jason Day, Seung-yul Noh – a primeira linha do golfe mundial está agora repleta de adolescentes e pós-adolescentes. Mas é para o italiano Matteo Manassero, acabado de fazer 17 anos, que todos os olhares se viram. Ele, sim – diz-se –, será o grande adversário (e depois o sucessor) de Tiger Woods

 

“O Matteo é um miúdo fantástico, completamente terra-a-terra, simpático como mais ninguém”, garantiu há dias Edoardo Molinari, na conferência de imprensa de lançamento do BMW Italian Open, disputado no último fim-de-semana no Royal Park I Roveri, em Turim. “Mas a questão é que não é apenas um miúdo fantástico. Na verdade, tem tudo para ser o melhor golfista italiano de sempre. Assim que ganhar mais alguma distância a partir do tee, é garantido. Dêem-lhe três anos e será um dos melhores do circuito”, acrescentou o mais velho dos irmãos Molinari, campeão do Challenge Tour 2009 e vencedor da Taça do Mundo do mesmo ano na companhia do seu irmão, Francesco.

Exagero? A maior parte dos observadores diz o contrário: que, se a frase de Molinari peca, é na verdade por defeito. Para muitos deles, e por muito falível que seja um vaticínio desta natureza numa modalidade como o golfe, está finalmente encontrado um adversário para Tiger Woods – e, de resto, o homem que um dia receberá do californiano a tocha que ilumina o jogo dos fairways e dos greens e a carregará no caminho para uma nova dimensão. No fundo, e embora este sejam os tempos de Rory McIlroy, Ryo Ishikawa, Rickie Fowler, Jason Day ou Seung-yul Noh, é para Matteo Manassero que se viram agora todos os olhares, convictos de que ele, sim, liderará a próxima geração de golfistas de topo.

Nascido num momento em que Bill Clinton já era presidente dos Estados Unidos, que os Balcãs ainda se encontravam em guerra e que o Muro de Berlim já havia caído (o Muro de Berlim e, aliás, a URSS), Matteo Manassero tinha apenas 17 anos e 17 dias de idade quando, a 3 de Maio passado, se tornou profissional de golfe. E, no entanto, possuía já um currículo absolutamente inigualável, pejado de recordes aparentemente imbatíveis, incluindo os de mais jovem jogador de sempre a vencer os troféus para o melhor amador no British Open (2009) e no The Masters Tournament (2010), em que de resto já fora o mais novo a passar o cut.

No British Open do ano passado, a experiência foi especial: Manassero jogou os dois primeiros dias ao lado de Sergio García e Tom Watson, terminou mesmo à beira do top 10 (T13, depois de uma back nine final aquém do que produzira nas primeiras três rondas e meia) e foi colocar-se junto ao green do 18 a torcer, qual jovem aficionado, pela vitória do seu novo amigo. “Eu não sei se volto. Tu voltarás com certeza”, dissera-lhe Tom Watson, ao final do segundo dia. No The Masters deste ano, o teste foi ainda maior. O mais jovem a passar o cut em Augusta, até então, fora o sul-africano Bobby Cole (1967), na altura já à beira dos 19 anos. Manassero ainda não tinha feito 17 – e não só jogou no fim-de-semana, como o conseguiu através de três consecutivos putts gigantescos, no caso para salvar dois bogeys e um par.

O jogo à volta e dentro do green é, aliás, o seu forte. Ainda pouco comprido no tee shot, até em resultado do (para já) limitado desenvolvimento do seu físico, Manassero tem “um jogo curto que combina a imaginação de um artista com a coragem de um basejumper”, como escreveu recentemente o britânico “The Guardian”, acrescentando que esse, sim, é “o factor ‘x’ que separa os grandes dos apenas bons”. E a inspiração está identificada. Quando o viu jogar pela primeira vez, tinha Matteo então apenas 13 anos, Peter McEvoy, antigo capitão da selecção europeia da Walker Cup, ficou impressionado: “Aviso-vos de que a Europa pode ter finalmente encontrado o seu novo Seve Ballesteros.” Pois fora precisamente esse mesmo Ballesteros que Manassero impressionara nove anos antes, durante uma exibição paralela ao Italian Open, ao fazer um chip-in, no pitching green do Gardagolf (Brescia), com apenas quatro anos de idade.

Nascido em Negrar, província de Verona, Matteo Manassero não é sequer o típico jovem bem-nascido que desde o início tem os meios e a atmosfera familiar necessários a um investimento permanente no golfe. Filho de um casal de classe média, começou a acompanhar o pai nas suas rondas de sábado de manhã e em breve ganhou de presente o seu primeiro taco. Pois aos sete anos já havia vencido o campeonato nacional italiano para jovens com idades até aos (pasme-se) 12 anos. Entretanto, e em parte devido ao trabalho do treinador Alberto Binaghi, nunca mais se cansou de elevar fasquias. Agora, o público não o larga. Inclusive as raparigas, que o seguiram para todo o lado ao longo das quatro rondas do The Masters, na Georgia (EUA). “É lindo”, escreveu a jornalista Angela Kelly, do LA Times. “Parece que acabou de chegar do Mónaco dos anos 60”, voltou o The Guardian.

“O que eu tento fazer é manter-me sempre em jogo. Ter sempre a cabeça erguida, não dar nunca uma pancada por perdida. Foi isso que os meus pais me ensinaram na vida”, costuma dizer. À volta, costuma ter tanto os progenitores como o avô. Mas, embora reconheça que em alguns momentos se sente um tanto nervoso perante as expectativas deles, nem por isso cede a pressões. “Não jogo para eles. Jogo para mim. Aprendi que é a única maneira. E a sorte é que não tenho expectativas. Na verdade, o que eu quero é divertir-me. Sonho ganhar o The Masters, sonho ganhar muitos torneios. Mas, para já, o que quero é divertir-me”, acrescenta. E o facto é que se diverte: a primeira coisa que faz, quando regressa de um torneio, é descer as escadas do prédio onde vive, em Verona, e jogar futebol na rua com os amigos de infância, imitando as fintas e os remates dos seus ídolos do AC Milan.

Pois agora, que é profissional de golfe, parte dessa vida ficará pelo caminho. Determinado a continuar os estudos, Matteo Manassero vai ter, no entanto, de abandonar a escola pública de Verona, onde sempre estudou – e, quanto aos dois últimos anos de liceu, terá de acabá-los online. Mas nem por isso está demasiado ansioso. As estatísticas lembram-lhe que, na história do European Tour, apenas Ballesteros começou mais novo a jogar com regularidade. E, no entanto, nenhuma expectativa ainda – mesmo se, entretanto, já assinou contrato de representação com o International Management Group, a mais importante empresa de gestão de carreiras (desportivas e não só) do mundo, fundada nos anos 60 pelo mítico Mark McCormack. “O que quero é ganhar o cartão do circuito para 2011. O resto logo se verá”, diz Manassero.

Para já, o que se tem visto é brilhante. No seu primeiro torneio como profissional, o Italian Open da semana passada, Matteo passou o cut com uma perna às costas e continuava na primeira metade da tabela ao final da terceira jornada, com todas as voltas ao nível ou abaixo do par do campo. Entretanto, Colin Montgomerie, capitão da selecção europeia para a Ryder Cup de Outubro, já jogara (a seu próprio pedido) duas rondas com ele, na intenção de avaliar uma eventual convocatória como wildcard para a competição marcada para o País de Gales. Mais ainda: tanto o R&A como a USGA já lhe haviam agradecido a sua participação na embaixada de golfistas profissionais e amadores que, no ano passado, ajudaram a convencer o Comité Olímpico Internacional a devolver o golfe às Olimpíadas de Verão a partir da edição de 2016, marcada para o Rio de Janeiro.

“Para já, o que esperamos é que ajude a fazer crescer o número de golfistas amadores italianos de 59 mil para 100 mil”, diz Franco Chimenti, presidente da Federação Italiana de Golfe e o homem que mais se empenhou em que o Open de Itália fosse o primeiro torneio da jovem estrela como profissional. “De resto, que mais desejos temos sequer o direito de formular? Num ápice, ele sairá da nossa alçada e tornar-se-á simplesmente maior do que nós todos. E, então, só nos restará orgulharmo-nos por, um dia, termos privado com ele.”

 

Uma estrela para o futuro (e o futuro começou em 2009)

Matteo Manassero começou a jogar golfe aos três anos e venceu o seu primeiro torneio aos sete. Hoje, é talvez a mais flamejante jovem estrela do golfe mundial – e, perante a ascensão de Rory McIlroy, Ryo Ishikawa ou Rockie Fowler, o mínimo que se pode dizer é que a concorrência é fortíssima.

MATTEO MANASERO

Nascimento: 19 de Abril de 1993, em Negrar, província de Verona (Itália)

Principal vitória como amador: British Amateur Championship 2009

Prestação em majors: duas participações (British Open 2009 e Masters Tournament 2010), dois cuts passados, um T13 (British Open) e um T36 (Masters)

Semanas no top do ranking mundial amador: 18

Data em que se tornou profissional: 3 de Maio de 2010

Posição no ranking mundial: 429 (antes do BMW Italian Open)

 

Os recordes de juventude de Matteo

 

A juventude está sobrevalorizada nos dias de hoje? Perguntem-no a Matteo Manassero e ele dirá que não. Com escassos 17 anos e 27 dias (completados hoje), o jovem italiano tem já sete relevantíssimos recordes de juventude no golfe de alto nível. E ainda agora começou a sua caminhada…

- Mais jovem jogador de sempre a vencer o British Amateur Championship (com quase dois anos de vantagem sobre o segundo classificado)

- Mais jovem jogador dos últimos 140 anos a jogar o British Open

- Mais jovem jogador de sempre a vencer a Silver Medal para o melhor amador no British Open

- Mais jovem jogador de sempre a jogar o The Masters Tournament

- Mais jovem jogador de sempre a passar o cut no The Masters Tournament (com quase dois anos de vantagem sobre o segundo classificado)

- Mais jovem jogador de sempre a vencer a Georgia Cup para o melhor amador no The Masters Tournament

- Segundo mais jovem jogador de sempre a jogar com regularidade no European Tour (a seguir a Seve Ballesteros)

FEATURE. J (O Jogo), 16 de Maio de 2010

publicado por JN às 23:47

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joel neto

Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974. Publicou “O Terceiro Servo” (romance, 2000), "O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002), “Al-Jazeera, Meu Amor” (crónicas, 2003) e “José Mourinho, O Vencedor” (biografia, 2004). Está traduzido em Inglaterra e na Polónia, editado no Brasil e representado em antologias em Espanha, Itália e Brasil, para além de Portugal. Jornalista, tem trabalhado... (saber mais)
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