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04 Julho 2010

Não haverá grandes celebrações em torno do 120º aniversário do nascimento do golfe em Portugal. Mas a efeméride aí está – e nas suas entrelinhas é possível encontrar dez datas importantes que contam, também elas, a história da modalidade no nosso país. Uma história cheia de vitalidade, a que falta agora a capacidade para conquistar um número de praticantes vagamente correspondente ao número de campos (e mesmo de clubes) existentes

 

Passaram-se 120 anos entre o momento em que a comunidade inglesa do Porto, a mesma que nos trouxe o ténis e o râguebi, introduziu o golfe em Portugal e aquele em que foi finalmente inaugurado o primeiro campo de golfe público no nosso país (concretamente a Academia de Golfe Municipal de Cantanhede). Na hora do balanço, “o saldo é necessariamente positivo”, como diz Pedro Vicente, agora em transição entre os cargos de secretário-geral da Federação Portuguesa de Golfe e assessor da Presidência da mesma instituição.

A data será celebrada com parcimónia, à medida de um tempo de crise, constando sobretudo na realização, em Setembro, de um grande torneio no Oporto Golf Club, com a participação de uma série de convidados estrangeiros. Entretanto, porém, é possível identificar, ao longo dessa história metacentenária, as dez datas que mais contribuíram para o desenvolvimento da modalidade em Portugal – e que, aliás, nos trouxeram até aos números que hoje reflectem a realidade do golfe nacional. Próximo desafio: conquistar mais portugueses para a prática daquele a que tantos já chamaram “o melhor desporto do mundo”.

 

1890

FUNDAÇÃO DO OPORTO

Membro da comunidade inglesa do Porto, grande parte dela dedicada à exportação de vinho do Porto, Charles Neville Skeffington funda o Oporto Golf Club, então ainda com o nome Niblicks Golf Club. O campo, de nove buracos, é instalado na freguesia de Silvade, a cerca de 800 metros da antiga praça de toiros de Espinho. Tinha 2027 de distância máxima e era atravessado, no fairway do buraco 7, pela linha férrea Lisboa-Porto. Os jogadores vinham do Porto, atravessavam o Douro de barco para Gaia, apanhavam o comboio para Sul e depois ainda iam a pé para o campo. Conta-se que, ao saírem do comboio, já vinham jogando pelo caminho – e que, no regresso, saíam a jogar também, apostando em quem chegava com menos pancadas ao Café Chinez. Um ano depois é criada a Taça Skeffington, o mais antigo torneio do mundo em disputa ininterrupta.

 

1907

BENEPLÁCITO RÉGIO

D. Manuel II passa por Espinho e pára para jogar umas quantas partidas. É a primeira vez que a corte dá atenção pública à modalidade, oferecendo-lhe assim o seu beneplácito. Por esta altura já há mais dois campos no Norte, um no Porto (cinco buracos) e um em Matosinhos (nove buracos). O Niblicks já havia ganho o actual nome, Oporto Golf Club – e o campo em que jogava também já era o actual, embora com apenas nove buracos (par 36). A modalidade alastrara-se também, entretanto, a Lisboa, onde o Lisbon Sports Club, embora com existência para já informal, ia percorrendo a região (Campo Pequeno, Algés, Carcavelos…) à procura do local ideal para jogar. O clube apenas será oficialmente fundado em 1921, só se instalando na Quinta da Carregueira, em Belas, em 1964. E ainda seria preciso esperar até 1992 para que o actual traçado de 18 buracos estivesse em funcionamento.

 

1936

BENEPLÁCITO REPUBLICANO

Já com a prática do golfe alargada ao Estoril (embora o Clube do Golf do Estoril só viesse a ser fundado em 1945) e com um segundo clube a funcionar em Espinho (o Miramar), a República dá pela primeira vez atenção pública à modalidade em 1936, oferecendo-lhe, também ela, a sua ratificação. É, aliás, o próprio Óscar Carmona, Presidente da República, quem procede à inauguração do campo de nove buracos do Grande Hotel de Vidago, região onde a comunidade inglesa do Porto gosta de banhar-se nas termas. Serão novamente os ingleses, de resto, a promover ainda o alargamento do golfe ao arquipélago da Madeira, onde um ano depois é inaugurado o Santo da Serra Favellas Golf Club, com um percurso também de nove buracos. Neste caso, a primeira pancada do campo pertence a J.H. Taylor, cinco vezes campeão do British Open.

 

1939

PORTUGUESES ENTRAM EM ACÇÃO

O golfe já tem, por esta altura, quase 50 anos de existência em Portugal. Mas só então se verifica a inauguração de um campo e de um clube sem a influência directa de qualquer comunidade inglesa: o Campo de Golfe Terra Nostra, situado na freguesia das Furnas, na ilha de São Miguel, e criado por iniciativa de Vasco Bensaúde, referência maior daquele que ainda hoje é o maior grupo económico dos Açores. Ainda assim, e embora Portugal dispusesse por esta altura de sete campos, a vitalidade do jogo está mais ou menos circunscrita ao Porto e a Lisboa, que entretanto começam a disputar entre si a Taça Kendall. É precisamente a partir dessa taça que vem a nascer o actual Campeonato Nacional Individual Absoluto.

 

1949

CRIAÇÃO DE UMA FEDERAÇÃO

Ao fim de 60 anos, o golfe ganha finalmente uma associação oficial. A Federação Portuguesa de Golfe é criada a 20 de Outubro, por iniciativa do Oporto, do Lisbon, do Miramar e do Estoril. A sede é instalada no edifício do Clube de Golf do Estoril e o primeiro presidente é Ricardo Espírito Santo Silva. António Mascarenhas, Nuno Brito e Cunha, Visconde de Pereira Machado (que chegaria a ser ainda Presidente da Associação Europeia de Golfe), Fernando Cabral, Tito Lagos e José Roquette viriam a constituir alguns dos seus sucessores. Entretanto, é lançado o Open de Portugal, a primeira grande competição portuguesa para profissionais, que a partir de 1953 é realizada anualmente no Estoril.

 

1966

O NASCIMENTO DO ALGARVE

Sir Henry Cotton, tricampeão do British Open, lança o primeiro campo de golfe do Algarve: o Penina, de imediato considerado um dos melhores traçados da Europa continental. O próprio Henry Cotton desenhará, dois escassos anos mais tarde, o primeiro campo de Vale de Lobo. Em 1969 será ainda lançado o primeiro traçado de Vilamoura, hoje chamado Old Course. Os turistas ingleses começam a afluir com cada vez mais assiduidade à região, delirantes com a possibilidade de jogarem ao longo dos 12 meses do ano. A imprensa britânica não se cansa de elogiar as condições para a prática da modalidade em Portugal. O Algarve Open, realizado anualmente entre 1969 e 1972, começa a ganhar mais projecção internacional até do que o Open de Portugal. A região virá a tornar-se, ao longo das décadas seguintes, num dos mais apreciados destinos turísticos de golfe do mundo.

 

1973

AUTONOMIZAÇÃO DA FPG

Depois de mais de 20 anos a funcionar no edifício do Estoril Golf Clube, a Federação Portuguesa de Golfe dá o seu grito do Ipiranga e instala-se numa infra-estrutura cedida por uma empresa comercial, autonomizando-se formalmente dos clubes que a fundaram. Cinco anos depois, e ainda na ressaca daquele que foi um dos períodos mais duros da existência da modalidade em Portugal (o PREC, incluindo contestações classistas de diversa ordem e, até, a ocupação dos terrenos de vários campos), a FPG seria reconhecida com o estatuto de Utilidade Pública. Os dois momentos viriam a verificar-se fundamentais para a disseminação da prática da modalidade e para a criação de uma estrutura técnica profissional na Federação.

 

1976

ORGANIZAÇÃO DO CAMPEONATO DO MUNDO

Portugal recebe pela primeira vez o Campeonato do Mundo por equipas, naquele que é então o primeiro grande teste à sua capacidade organizativa nos domínios do golfe. Entre as equipas participantes, está Israel – e as preocupações de segurança são tais, tendo em conta o Massacre de Munique ocorrido quatro anos antes, que os jogadores israelitas jogam escoltados por soldados armados com metralhadoras. Por esta altura, o Open de Portugal já faz parte do calendário do European Tour, criado entre 1971 e 1972. Mais tarde virão a surgir o Open da Madeira e o Portugal Masters, este hoje uma das provas mais importantes do calendário Europeu. Em 2005, Portugal receberá a Taça do Mundo, então a contar para os World Golf Championships. E, não muito tempo depois disso, lançará ainda a candidatura à recepção da Ryder Cup 2018.

 

1981

AS MUDANÇAS DE JOSÉ ROQUETTE

Quinze anos antes de candidatar-se à presidência do Sporting, José Roquette chega à direcção da Federação Portuguesa de Golfe – e, então, muda quase tudo. Beneficiando da recente autonomização da estrutura, assim como o seu reconhecimento com o estatuto de Utilidade Pública, harmoniza as categorias de praticantes amadores pelas normas internacionais e cria uma estrutura profissionalizada de apoio à modalidade nos escalões juvenis. Rapidamente são criadas as primeiras escolas de golfe nacionais, concretamente em Espinho e no Estoril. E é também em resultado dessa posta,  que virá a ser fundado, em 1997, o Circuito Drive, envolvendo mais de 900 praticantes, distribuídos por 24 centros de aprendizagem. É ele a base da actual vitalidade do jogo entre os mais jovens.

 

2004

LANÇAMENTO DO DATAGOLF

O número de campos cresce a um ritmo avassalador. Embora as prestações dos profissionais portugueses não consiga nunca sair da mediania, as grandes competições realizadas em Portugal vão ganhando crescente prestígio internacional. As selecções nacionais juvenis começam a conseguir cada vez mais brilharetes no estrangeiro. E, perante o crescimento a bom ritmo do número de golfistas amadores nacionais – e o crescimento frenético do número de clubes – a FPG lança o Datagolf, um programa informático da autoria de Luís Moura Guedes, que vem permitir uma gestão harmonizada dos handicaps. O número de competições amadoras dispara E o Datagolf é, inclusive, exportado para outros países. A Federação começa, entretanto, a trabalhar com mais intensidade no projecto para a disseminação de uma rede de campos públicos e de baixo custo, de que a Academia Municipal de Golfe de Cantanhede vem a ser o primeiro exemplo concretizado.

FEATURE. J (O Jogo), 4 de Julho de 2010

publicado por JN às 11:17
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caro joel

Não sou aficionado do Golfe, mas talvez possa sugerir um marco importante para a história do golfe (pelo menos em Lisboa). A abertura em breve do campo de golfe da cidade Universitária.
jorge espinha a 12 de Julho de 2010 às 12:16

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joel neto

Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974. Publicou “O Terceiro Servo” (romance, 2000), "O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002), “Al-Jazeera, Meu Amor” (crónicas, 2003) e “José Mourinho, O Vencedor” (biografia, 2004). Está traduzido em Inglaterra e na Polónia, editado no Brasil e representado em antologias em Espanha, Itália e Brasil, para além de Portugal. Jornalista, tem trabalhado... (saber mais)
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