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01 Agosto 2010

Aos 30 anos e com quase 35 milhões de euros em prémios, Sergio García  dá sinais de cansaço. Durante o British Open de há duas semanas, falou mesmo em abandonar o golfe. Entretanto, já reconsiderou. Mas o facto é que não consegue um bom resultado desde o Accenture Match Play Championship de Fevereiro, que não mostra alegria em campo desde a vitória no The Players Championship de 2008 e que, aliás, parece vergado ao peso das expectativas desde a derrota no playoff do British Open de 2007. Estará “El Niño” a transformar-se num cliché?

 

“Sou jogador para andar à procura de resultados de 61, 62, 63. Não ando aqui para fazer scores de 71 consecutivos. Sinceramente, não sei se quero abandonar o golfe, mas sei que é assim que me sinto neste momento. Sempre fui capaz de dominar um campo de golfe. Se agora já não o sou, talvez não valha a pena o sofrimento de continuar a tentar.” As palavras foram proferidas há duas semanas, ao final do dia de sexta-feira, logo após a concretização da segunda ronda do British Open, em Saint Andrews. Sergio García haveria de reconsiderar no dia seguinte, depois de uma série de conversas com amigos e familiares e de um resultado de 70 pancadas que o lançaria para o 14º lugar final no terceiro major championship do ano. Para muitos, porém, o problema mantém-se: Sergio simplesmente esqueceu-se do privilégio que é fazer de um jogo de tacos e de bolas um modo de vida – e, ainda por cima, ser milionário com isso.

Já lhe chamaram “o melhor golfista do mundo sem majors”. Mas a verdade é que se trata de um título efémero: antes dele, chamavam o mesmo a Colin Montgomerie – e, por esta altura, quem ostenta o título é Lee Westwood. Facto: Sergio García nunca ganhou um “big one”. Facto: Sergio Garcia parece definitivamente vergado ao peso das expectativas desde que, em Julho de 2007, falhou, no buraco 18 de Carnoustie, um curto putt para vencer o British Open. Facto: Sergio Garcia não demonstra alegria em campo desde que, em Maio de 2008, ganhou o The Players Championship em TPC Sawgrass. Facto: Sergio Garcia não consegue um resultado verdadeiramente bom desde a chegada às meias-finais do Accenture Match Play Championship, em Fevereiro passado. E a questão é que o fim do namoro com Morgan-Leigh Norman, a filha de Greg Norman com quem andou a fazer planos para casar até que, um ano depois, ela preferiu outro caminho, já não pode explicar tudo.

Solteirão e com repetidos comportamentos de playboy, incluindo uma predilecção especial pelos automóveis exibicionistas (nomeadamente um Ferrari 360 Modena e um Jaguar XJR) e relações com várias super-estrelas do desporto e do espectáculo (nomeadamente a tenista Martina Hingis e a actriz Jessica Alba), Sergio García já tem, aos 30 anos, uma longa experiência nos domínios das desventuras amorosas. Mais: apesar da assumida paixão por Morgan-Leigh, nunca abandonou os hábitos mundanos que sempre haviam servido de base à sua existência, entre os quais os longos churrascos em Borriol, onde nasceu e oficialmente ainda vive, as futeboladas com os amigos, as noitadas pós-adolescentes de PlayStation e mesmo o acamaradamento com outros desportistas bons vivants, como Camilo Villegas e Rafael Nadal. E, na verdade, pode estar simplesmente cansado – tão cansado como sugere quando diz: “Tenho sentido cada vez mais assim. Sempre que parece que estou a chegar a algum sítio, alguma coisa acontece, um erro qualquer que me trava.” Sam Torrance, seu antigo capitão na selecção europeia da Ryder Cup, é claro: “Ele não está aqui. Na sua cabeça, preferia estar numa praia algures.”

Nascido a  de Janeiro de 1980, a curta distância da costa  Leste espanhola e a pouco mais de uma hora a Norte de Valência, Sergio García é o segundo de três filhos de uma família fundada no golfe. A mãe, Consuelo, dirigia a pro-shop do Mediterraneo Golf Club. O pai, Victor Sr., um antigo caddie que chegara a cultivar o sonho de ganhar um lugar no European Tour, era o golf pro local. Tanto o irmão mais velho como a irmã mais nova jogavam, atingindo mesmo algum sucesso enquanto amadores. Entretanto, a maior parte do talento estava concentrado nele. Iniciado ao golfe com apenas dois anos, Sergio jogou pela primeira vez na casa das 70 pancadas aos dez anos, conquistando dois anos depois os títulos de campeão absoluto do seu clube e de campeão nacional espanhol de sub-12. Durante a adolescência, cumpriu uma série de sonhos: jogou ao lado de Severiano Ballesteros, consumou o seu primeiro triunfo internacional (o Topolino World Junior Championship de 1994) e colocou-se na rota dos media ávidos de encontrar a próxima-grande-coisa do golfe mundial, numa altura em que Nick Faldo e Greg Norman começavam a declinar e Tiger Woods era ainda apenas uma promessa.

O seu primeiro cut no European Tour foi obtido aos 15 anos (no Turespaña Open Mediterrânea de 1995), o que constituiu então um recorde. Pouco depois, Sergio venceu o European Amateur, estabelecendo mais um recorde de juventude. Em 1999, conquistou a Silver Cup para o melhor amador no The Masters Tournament. Tornou-se de imediato profissional – e, quando apareceu a disputar a vitória no PGA Championship desse mesmo ano, num duelo final com Tiger Woods, já não era um desconhecido para ninguém, percorrendo o mundo com aquele que é talvez, ainda hoje, o seu mais famoso shot: um fade rasteiro batido contra uma árvore, incluindo uma correria adolescente fairway fora, a conferir o resultado daquela pequena loucura. Desde então, Sergio venceu 19 vezes como profissional, primeiro com o “estranho” swing que o pai lhe ensinara e depois com um novo swing construído à medida dos grandes instrutores americanos. O público rendeu-se-lhe sempre, os adversários elogiaram-no até não ser mais possível, os media não deixaram nunca de considerá-lo como candidato à vitória em qualquer torneio em que participasse. Até que, em 2007, aquele putt no 18 de Carnoustie, beijando o lábio do buraco e acabando por desistir de entrar, deu início ao seu declínio – um declínio que nem a vitória no The Players, nem os dois triunfos entretanto conquistados no European Tour conseguem disfarçar.

E agora, que se encontra mais ou menos a meio da tabela entre os jogadores potencialmente qualificados para a final da Race to Dubai (27º de uma lista em que se qualificam 60) e perto do limite do cut para o primeiro playoff da FedEx Cup (94º de uma lista em que se qualificam 125), a maior responsabilidade parece recair sobre Colin Montgomerie, o homem a quem roubou o tal título de “melhor golfista do mundo sem majors”. Por esta altura, e apesar da sua condição de “histórico” de Ryder Cup (onde detém um impressionante registo de 13 vitórias, 3 empates e 3 derrotas), Sergio está longe de uma qualificação automática para a 39ª edição da prova, marcada para Outubro no Celtic Manor Resort, no País de Gales. Uma convocatória no papel de wildcard parece ser agora a sua única esperança. E seguramente Montgomerie não vai querer ouvir da sua boca, na altura da “conversinha” entre os dois, frases como: “Não sei se vou deixar o golfe aos 30 anos, mas a verdade é que preciso de melhorar a minha confiança. Se não conseguir mudar a situação, terei de encontrar outras coisas a que me dedicar.”

 

Sergio García

NASCIMENTO: 9 de Janeiro de 1980, em Borriol, Castellón, Espanha

ALCUNHA: “El Niño”

FÍSICO: 1,78 m; 73 kg

PROFISSIONAL DESDE: 1999 (hcp +5)

CIRCUITOS: European Tour (desde 1999) e PGA Tour (desde 1999)

VITÓRIAS COMO PROFISSIONAL: 19 (incluindo 8 no European Tour e 7 no PGA Tour)

RESULTADOS EM MAJORS: 48 participações, 15 top 10 (incluindo dois 2º lugares no British Open, um 2º lugar no PGA Championship, um 3º lugar no US Open e um 4º lugar no The Masters).

DESEMPENHO NA RYDER CUP: 5 participações, 3 vitórias colectivas (registo pessoal: 14 vitórias, 3 empates e 3 derrotas)

GALADÕES E HOMENAGENS: Sir Henry Cotton Rookie of the Year 1999; Vardon Trophy 2008; Byron Nelson Award 2008

FEATURE. J (O Jogo), 1 de Agosto de 2010

publicado por JN às 23:41
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joel neto

Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974. Publicou “O Terceiro Servo” (romance, 2000), "O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002), “Al-Jazeera, Meu Amor” (crónicas, 2003) e “José Mourinho, O Vencedor” (biografia, 2004). Está traduzido em Inglaterra e na Polónia, editado no Brasil e representado em antologias em Espanha, Itália e Brasil, para além de Portugal. Jornalista, tem trabalhado... (saber mais)
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