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02 Agosto 2009

“Teria sido uma história dos diabos, não teria? O velho a dar cabo dos miúdos? Teria sido uma história dos diabos, ah, pois teria...” Duas horas depois de concluído o 138º The Open Championship, que ofereceu ao norte-americano Stewart Cink  (36 anos) a primeira vitória em torneios do Grand Slam, Tom Watson tinha mais ou menos as pazes feitas com a derrota. Aos 59 anos, 34 depois do primeiro de oito triunfos em majors, o norte-americano já vivera de tudo: glórias e frustrações, sortes e azares, elogios e críticas. Mas nunca um só jogador, nos longos 149 anos de história do mais antigo e mítico torneio de golfe do mundo, estivera tão perto de vencer o campeonato britânico nas mesmas condições que ele. Uma década depois da adesão ao Campions Tour, o circuito americano de veteranos, Tom Watson ficou a um curto putt de dois metros para ganhar no Grand Slam, em cuja galeria de vencedores teria estabelecido um novo recorde de idade, com onze anos de vantagem sobre o segundo classificado.
“Rasga-nos a garganta, uma coisa destas. Não estava destinado a acontecer, e é uma grande frustração chegar a essa conclusão”, reagiu perante os jornalistas, pouco depois de subir à mesa protocolar para receber o troféu destinado ao segundo classificado. “É uma coisa muito difícil de aguentar. Mas vocês sabem: o velho jarreta quase conseguiu. E, portanto, também sabem que isto não é um funeral”, acrescentou. Ao seu lado, Hillary, a mulher, chorava em silêncio. Pelo campo de Turnberry, o mesmo que já o consagrara duas vezes (uma como campeão do mesmo British Open, em 1977, e outra como campeão do Senior Open, em 2003), milhares de pessoas vogavam sem destino, como que “desmoendo” a decepção. Cink, um bom jogador e um bom homem, fora finalmente premiado com aquilo que há muito merecia. Mas “a história” era Tom Watson. O herói romântico era Tom Watson. A Cinderela era Tom Watson – uma Cinderela de proporções nunca antes vista.
“Era uma história boa de mais para ser verdade”, escreveria no dia seguinte um editorialista do jornal londrino The Telegraph. “Mas é, ainda assim, uma das melhores histórias desportivas alguma vez contadas. Tão boa que, se fosse ficção, haveria de ser rejeitada pelos editores, tal a sua inverosimilhança. Simplesmente impossível. Demasiado rebuscada.” A cadeia norte-americana ESPN decidiu resolver o problema: abrir uma sondagem online para eleger o maior feito de sempre na história do desporto, amador ou profissional. À votação submeteu dez feitos, incluindo o segundo lugar de Tom Watson (o segundo, não uma possível vitória), a conquista do cinto de campeão do mundo de pesos pesados pelo pugilista George Foreman aos 45 anos (em 1994), o triunfo do jockey Bill Shoemaker no Kentucky Derby aos 54 anos (1986) ou a participação do hoquista Gordie Howe em jogos da NHL até aos 51 anos (até 1979). Tom Watson, embora beneficiando da proximidade cronológica (e da habitual falta de memoria dos cibernautas), ganhou com mais do dobro dos votos do segundo classificado, Foreman.
“Vocês sabem que o que isto significa, não sabem?”, escreveu outro editorialista, este do Chicago Tribune. “Significa que o fardo das expectativas para homens de 59 anos acabou de ganhar uma tonelada ou duas. Significa que aquelas sestas depois do almoço vão parecer preguicite aguda a partir de agora…” O feito ainda gerou, de início, alguma polémica: rapidamente os inimigos viscerais do golfe começaram a esgrimir a presença de Watson nos primeiros lugares da classificação do British Open, ao longo dos primeiros dois dias, como mais uma prova de que o golfe é atleticamente irrelevante. A televisão, no entanto, acabou por calá-los: cada shot do velho campeão era filmado ao pormenor (e muitos deles repetidos em super slow motion), deixando clara a agilidade  exigida.  “Sempre olhei para o golfe com desconfiança. E Tom Watson chegar ao quarto dia em condições de vencer parecia-me a prova de que tinha razão”, escrevia há dias o crítico de televisão do Boston Globe. “Afinal, estava enganado. Aquilo a que assisti foi uma combinação única de experiência, memória muscular, adrenalina e agilidade. Isso não é apenas jogo: é desporto. E mostra que os golfistas, hoje em dia, são atletas em excelente condição física. Mesmo quando não parecem.”
Tom Sturges Watson não parecia. Nascido em Kansas City, no estado do Missouri, ele dedicara os 50 primeiros anos da sua vida em exclusivo à prática do golfe. Fora uma criança rodeada de demasiadas exigências (o seu pai, Ray Waston, era fanático pelo jogo e “queria de mais” vê-lo vencer), um adolescente prodígio, um estudante universitário exemplar (com licenciatura em psicologia), um adulto com alto grau de humanidade (chegou a abandonar o seu clube original, o National Golf Club of Kansas City, em protesto contra a descriminação dos judeus candidatos a sócios) e um multi-campeão, com lugar assegurado entre os dez maiores da modalidade por muitos e bons anos. Até que, em 1999, um ano depois de ganhar o seu último torneio no PGA Tour (o MasterCard Colonial 1998), decidiu aderir ao Champions Tour e reduzir a actividade. Ainda ganhou uma série de torneios importantes no circuito de veteranos, mas uma operação para a substituição de uma anca por uma prótese, em meados 2004, obrigou-o a reduzir ainda mais a carga competiviva. Na altura em que chegou a Turnberry para disputar o seu penúltimo British Open, em que como ex-campeão tem direito a participar até aos 60 anos, o mais recente torneio que ganhara for a o pro-am do restaurante Outback Steakhouse, realizado no ano passado na Florida.
Agora, mudou tudo. Fechado o brilharete no difícil e imprevisível links de Turnberry, Tom Watson, entretanto promovido a 105º do ranking mundial (há três semanas era 1374º),  inscreveu-se de imediato no Senior Open, marcado para uma semana depois no Sunningdale Golf Club, em Inglaterra. Não ganhou, mas fez top 10 (T8). Entretanto, anunciou que quer ardentemente participar no British Open de 2009, marcado para o incontornável St. Andrews – e, entretanto, já ouviu a R&A admitir a possibilidade de aumentar a idade limite dos antigos campeões autorizados a participar torneio britânico. De Stewart Cink, nunca mais ninguém falou. “Ele impediu que acontecesse História. Só pode merecer a nossa comiseração. Que me desculpe, mas não vou lembrar-me dele”, escreveu o sénior golf writer da Golf Week. O “velho jarreta” há-de ser para sempre a história. Durante quatro dias, provou que se pode jogar ao mais alto nível até muito tarde, para gáudio dos golfistas veteranos de todo o mundo. Por outro lado, e com um só putt falhado, provou também que, mesmo à beira dos 60 anos, os nervos podem dar cabo de tudo. Um funeral, a sua derrota? Enquanto houver nervos, um homem continua vivo.

TOM WATSON
Vitórias, prémios, distinções e honras. Aos 59 anos, Tom Watson é uma das maiores personalidades da história do golfe. E, para isso, não precisava do brilharete no British Open: bastava-lhe ter ganho oito majors ou ter sido considerado seis vezes Jogador do Ano
Nome:
Thomas Sturges Watson
Nascimento: 4 de Setembro de 1949, em Kansas City, no Missouri (EUA)
Actividade como profissional: 1972-?
Vitórias como profissional: 90
Vitórias em torneios do Grand Slam: 8 (British Open em 1975, 1977, 1980, 1982 e 1983; The Masters em 1977 e 1981; US Open em 1982)
Desempenho Na Ryder Cup: 4 participações como jogador (1977, 1981, 1983 e 1989) e uma como capitão (1993); não perdeu nenhuma (apenas empatou a de 1989, anos em que a Europa reteve a taça)
Distinções: seis vitórias no Troféu PGA Player of The Year (1977, 1978, 1979, 1980, 1982 e 1984); três vitórias no Troféu Harry Vardon para o jogador com a melhor média anual de score (1977, 1978 e 1979); uma vitória no Troféu Bob Jones para um jogador especialmente distinto pelo fair play (1987); uma vitória no Troféu Old Tom Morris para uma personalidade destacada pela dedicação ao golfe (1992); presença no Golf Hall of Fame (desde 1988); presença no no Stanford Athletic Hall of Fame (desde 1985); eleito em 2000 pela revista Golf Digest o 10º melhor golfista de todos os tempos;
Outros factos: trabalha como course designer desde os anos 1990, com layouts dispersos por três continentes; é co-autor de livros de instrução e colunista da revista Golf Digest desde os anos 1970; tornou-se no jogador mais velho de sempre a liderar um major ao final de qualquer ronda (59 anos)

“MAJOR TOM”
Tom Watson está longe da liderança entre os jogadores com mais vitórias no PGA Tour, mas sempre se saiu bem nos majors, chegando a ganhar a alcunha de Major Tom (como na canção de David Bowie, isto é). Hoje, é o sexto classificado no palmarés do Grand Slam:
POS.           JOGADOR        PAÍS               TOTAL
1º                 Jack Nicklaus    EUA               18
2º                 Tiger Woods      EUA               14
3º                 Walter Hagen    EUA                11
4º                 Ben Hogan        EUA                 9
                    Gary Player       África do Sul    9
6º                 Tom Watson      EUA                 8
7º                 Harry Vardon     Inglaterra        7
                    Gene Sarazen   EUA                  7
                    Bobby Jones      EUA                 7
                    Sam Snead        EUA                 7
                    Arnold Palmer    EUA                7

 

UM RECORDE LONGE DE MAIS
Trinta centímetros, não mais. Foi por essa distância apenas que o recorde de Julius Boros sobreviveu. Tivesse Tom Watson convertido aquele putt para vencer o British Open e o recorde de idade entre os vencedores no Grand Slam teria subido onze (11) anos:
POS.       JOGADOR                    PAÍS          TORNEIO               IDADE
1º                 Julius Boros             EUA          PGA Champ. 1968   48 anos, 4 meses e 18 dias
2º                 Jack Nicklaus           EUA         Masters 1986            46 anos, 2 meses e 23 dias
3º                 Old Tom Morris         Escócia    British Open1867     46 years, 3 meses e 9 dias
4º                 Hale Irwin                 EUA          US Open 1990         45 anos, 0 meses e 15 dias
5º                 Roberto de Vicenzo  Argentina British Open 1967    44 anos, 3 meses e 3 dias

FEATURE. J, 2 de Agosto de 2009

publicado por JN às 17:09
tags:

O 138º The Open Championship vai marcar a história do golf , não pela vitória daquele americano, alto, careca e, aliás, bom jogador, mas por aquele em que Tom Watson , com 60 anos, perdeu ingloriamente no playoff .

Na memória do 138º The Open Championship Tom Watson não saiu vencido.
7abaixo a 9 de Agosto de 2009 às 10:46

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Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974. Publicou “O Terceiro Servo” (romance, 2000), "O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002), “Al-Jazeera, Meu Amor” (crónicas, 2003) e “José Mourinho, O Vencedor” (biografia, 2004). Está traduzido em Inglaterra e na Polónia, editado no Brasil e representado em antologias em Espanha, Itália e Brasil, para além de Portugal. Jornalista, tem trabalhado... (saber mais)
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