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01 Agosto 2009

Dono de uma pequena empresa, um amigo meu tentou, aqui há uns meses, pôr de pé um torneio de golfe. Não pretendia fazê-lo por publicidade: pretendia sobretudo poder reunir os amigos e os conhecidos, ainda que, eventualmente, acabasse por fazer um ou outro contacto privilegiado com “amigos de amigos” ou “conhecidos de conhecidos” que pudessem vir a participar. No essencial, porém, o que queria era isso: celebrar o seus 50 anos com um torneio de golfe. Percebo-o bem: quando me casei, a minha despedida de solteiro foi um torneio de golfe com o meu nome – e, por muito que tenha sido depois gozado pelos meus amigos não golfistas (que se juntaram apenas ao jantar final), aborrecidos com “a despedida de solteiro mais maricas e copinho de leite da história”, continuo a achar que foi um dos dias mais belos da minha obsessão por este jogo maravilhoso.

Adiante. Longe de ser rico, o meu amigo estava, apesar de tudo, disposto a puxar os cordões à bolsa. Vivemos tempos de crise, é certo, mas felizmente o problema não o atingiu por aí além. E ele cumpriu grande parte dos preceitos. Negociou um greenfee razoável num campo de boa qualidade, escolheu e orçamentou os troféus, seleccionou e reservou um restaurante. Da penúltima vez que falámos, tinha a maior parte das coisas definidas. “Vou convidar 80 pessoas. Não é um grande torneio, mas para convidar mais gente já não conseguiria pagar tudo do meu próprio bolso. E, se lhes peço dez euros a cada um, já sabes: não vem ninguém.” E disse eu: “Mas isso é fantástico! Já tens tudo acordado mesmo? Greenfees, catering de campo, jantar, tômbola, brindes – tudo isso?” Senti-o gelar. Esquecera-se do catering, não lhe ocorrera a tômbola e pensara que podia dispensar os brindes. Três dias depois, telefonou-me: “Desisti. Vou antes para o Brasil com a minha mulher.”
Eu acho que ele fez bem. Golfista que é golfista deve sempre alguma atenção em casa – e, se tem dinheiro e uns quantos dias livres, tem mais é de levar a mulher e os filhos para os trópicos, que bem o merecem eles todos. Mas não é só por isso que acho que o meu amigo fez bem. Na verdade, o seu torneio, mesmo se apenas frequentado por amigos e conhecidos, corria sérios riscos de ser um fracasso. Não o digo por experiência própria: a minha despedida de solteiro, em que cada um pagou 20 euros de green fee, correu bem. Mas a minha despedida de solteiro teve 16 participantes, de resto quase todos amigos mesmo. Oito dezenas de jogadores, entre amigos, conhecidos e conhecidos de conhecidos, já é muita coisa. E o facto é este: nós somos um mimadões. Notem a conjugação verbal: “somos”. Eu próprio o sou: convidam-me para imensas coisas, vou a tantas quanto posso, poucas vezes tenho de pagar o que quer que seja – e, entretanto, já possuo uma assinalável colecção de bonés e pólos. Mas eu agradeço. Sempre. E raramente vejo mais alguém agradecer.
Em muitos países, um golfista anónimo quase nunca é convidado para o que quer que seja. Mesmo uma figura pública só é convidada para uma ou outra coisa de vez em quando. Aqui, é só vantagens: as figuras públicas têm oitenta torneios por ano com tudo à borla, os anónimos pelo menos quinze ou vinte. São as vantagens de viver num país cheio de campos e quase sem jogadores: falta sempre gente para preencher o field de um evento com um mínimo de dignidade. Entretanto, porém, e mesmo não pagando um tostão, queixamo-nos de que saímos do buraco 14, longe da club-house. Queixamo-nos de que não há buggy e é preciso jogar a pé. Queixamo-nos de que o catering do campo não chegava para nos matar a fome. Queixamo-nos de que os brindes não eram nada de especial. Queixamo-nos de que a comida do almoço era fraca. Queixamo-nos de que o sorteio nem sequer tinha drivers e putters. Queixamo-nos de tudo e de nada – e ainda nos esquecemos de agradecer a oportunidade de ter podido jogar de graça um belo campo, com águas e cervejas à borla, caixinha de bolas e toalha no bolso, almoço oferecido e agradecimento compungido pela nossa presença.
Não é só ingratidão: é má educação também. E ainda dizem que este é um desporto elitista…

CRÓNICA DE GOLFE ("Tee Time"). Jornal do Golfe, Agosto de 2009

publicado por JN às 08:59

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joel neto

Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974. Publicou “O Terceiro Servo” (romance, 2000), "O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002), “Al-Jazeera, Meu Amor” (crónicas, 2003) e “José Mourinho, O Vencedor” (biografia, 2004). Está traduzido em Inglaterra e na Polónia, editado no Brasil e representado em antologias em Espanha, Itália e Brasil, para além de Portugal. Jornalista, tem trabalhado... (saber mais)
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