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23 Agosto 2009

Na verdade, foi Pádraig Harrington o primeiro a chamar a atenção para ele. No sábado à noite, e quando faltava ainda disputar uma ronda do 91º PGA Championship, quarto e último major de 2009, o irlandês, campeão em título, estava com -6, a duas pancadas do líder Tiger Woods. Derrotado por Tiger na recta final do Bridgestone Invitational, disputado apenas uma semana antes, Harrington discorria então, perante os jornalistas, sobre os seus desejos de ajuste de contas. Era um momento com especial significado para ele: depois de uma primeira metade de temporada verdadeiramente desastrosa, em que chegara a falhar cinco cuts consecutivos, o bi-campeão do British Open via-se finalmente a disputar a vitória em dois grandes torneios consecutivos: um dos World Golf Championships e outro do Grand Slam. E, no entanto, algo parecia dizer-lhe que a luta não era a dois. Mais do que isso: que, se fosse a dois, era bem possível que um deles não se chamasse Pádraig.

“Não ponham de parte o Y.E. Yang, por favor”, pediu aos jornalistas. “Quando ele ganhou o HSBC Champions, há dois anos, fê-lo perante um field poderoso, que suplantou em absoluto na recta final da prova. É um jogador magnífico a partir do momento em que se coloca nos lugares da frente”, acrescentou. Resultado: Yang ganhou mesmo. Jovens estrelas como Sergio Garcia, Adam Scott ou Andres Romero tinham tombado logo na sexta-feira, feito o cut. Monstros do golfe como Phil Mickelson, Angel Cabrera ou Jim Furyk haviam baixado os braços ao longo do dia de sábado. Jogadores em grande momento de forma como Lee Westwood, Rory McIlroy ou Lucas Glover haveriam de abdicar durante o dia de domingo. A dez buracos do fim, ele próprio, Harrington estaria fora da contenda, depois de um “boneco de neve” (um 8) ao melhor estilo “Tin Cup” no buraco 8, par 3. Restariam, então, apenas Tiger, provavelmente o melhor golfista de todos os tempos, e esse quase desconhecido sul-coreano chamado Y.E. Yang, famoso quando muito por ter pegado pela primeira vez num taco de golfe aos 19 anos. E o vencedor seria este.
Foi um back nine absolutamente electrizante, aquele a que as dezenas de milhar de espectadores presentes no Hazeltine National Golf Club, em Chaska (Minnesota), puderam assistir no último domingo. Yang colou a Tiger no buraco 4, voltou a atrasar-se no 5, tornou a colar no 8, atrasou-se de novo no 11 e recolou novamente no 12. Por esta altura, Tiger, com problemas de putting, já não era campeão por antecipação: tudo podia acontecer. Mas há muito tempo (desde 2004, na verdade) que o número 1 do ranking mundial não acabava uma época sem ganhar um único major. Mais: das 14 vezes que chegara ao fim da terceira ronda na liderança de um torneio do Grand Slam, ganhara sempre. Ainda era o favorito, no fundo. Até que, no tee shot do 14, o par 4 mais curto do campo, tanto ele como Y.E. Yang procuraram atingir o green com o driver. Ambos ficaram curtos. Então, o approach de Tiger, a partir do bunker, deixou-o a cerca de três metros da bandeira, para aquilo que seria um birdie esforçado. E o approach de Yang, feito do semi-rough, mudou tudo: um chip-and-run absolutamente perfeito, que resultou em eagle e numa vantagem que Tiger já não conseguiria desfazer.
Era o momento do campeonato. E, no entanto, quatro longos buracos estavam ainda pela frente. Y.E. Yang arriscou, teve vários good breaks, mas nunca perdeu o controlo. No 15, um par 5 absolutamente de nervos, salvou o par com conforto e esperou pacientemente que Tiger falhasse o birdie. No 16, um dos buracos mais difíceis do campo, atacou a bandeira e escapou com alguma sorte a um kick para a água, mas salvou o par muito mais confortavelmente do que o adversário. No 17 falharam ambos: Tiger errou o green e não conseguiu o up and down, Yang fez green in reguralions mas acabou com três putts. Pelo meio, porém, o sul-coreano nunca se desconcertou, continuando a sorrir e a acenar para a multidão, enquanto oferecia a bola aos espectadores mais próximos ao final de cada buraco. E, finalmente, o 18 foi uma pequena obra de arte. Com um drive posicionado no lado errado do fairway, a cerca de 225 jardas da bandeira, Y.E. Yang arrancou um híbrido em draw que deixou a bola a dois metros e meio do pin. Tiger arriscou tudo, precisado pelo menos de um birdie, e falhou o green. Acabou com bogie. Yang fez birdie, ganhando o campeonato por três pancadas. E, mesmo assim, Tiger não concluiu primeiro o buraco, de forma a permitir-lhe o seu momento de glória a solo.
“Revi isto na minha cabeça vezes sem conta. Eu estava no último dia de um major, a jogar ao lado do Tiger, e no final ganhava-lhe. É um sonho tornado realidade”, diria o sul-coreano no final. “Toda a minha vida tenho acompanhado a carreira dele. Sempre o respeitei. E, hoje, só ganhei porque fiz eu de Tiger Woods. Aquilo que vocês viram hoje, aqui, não foi o Y.E. Yang. Foi a melhor imitação que o Y.E. Yang consegue fazer do Tiger Woods. E, felizmente, essa imitação resultou.” Do outro lado, Tiger demorou a engolir o orgulho, mas acabou por render-se. “Tive um dia mau na hora errada”, começou. “Mas o Y.E. Yang é um vencedor digno. Vai-se a ver a ronda dele e, tirando o soluço dos três putts no 17, jogou maravilhosamente. Se olharmos para a sua carreira, aliás, vemos que bateu sempre muito bem na bola. A única coisa que o vinha travando era o putting. E, curiosamente, foi aí que ele me venceu hoje: no putting.”
Nascido na ilha sul-coreana de Jeju-do, Y.E. Yang tornou-se notório, na verdade, pela capacidade de vencer as suas limitações. Primeira: a idade. Hoje com 37 anos, o novo herói do PGA Tour pegou pela primeira vez numa bola de golfe aos 19 anos, quando se tornou apanha-bolas no Ora Country Club (Jeju), actividade que alternava com a de empregado de mesa num bar. Depois: a pobreza. Filho de pequenos camponeses, Y.E. Yang apaixonou-se de imediato pelo jogo, mas teve de continuar a trabalhar durante o dia, acabando por reduzir o treino a duas horas diárias num driving range de apenas 50 metros de comprimento. A seguir: a doença. Contratado por uma empresa de construção civil, onde foi à procura de “um trabalho a sério”, acabou com uma perna semi-esmagada pelo capotamento de uma máquina pesada. E finalmente: os conselhos para que desistisse. Recrutado para o serviço militar, Y.E. serviu até aos 22 anos, regressou a casa e mudou-se para a Nova Zelândia, onde pretendia perseguir uma carreira de golfista profissional – e, não tendo ainda sequer conseguido vencer o par de um campo, foi, naturalmente, desaconselhado por toda a gente a arriscar.
Hoje, já ninguém duvida de que fez bem. E não por causa do PGA Championship. Profissional de driving range desde os 24 anos, na Nova Zelândia, Y.E. Yang só se tornou profissional de competição aos 30, quando ganhou finalmente um lugar no Japan Golf Tour. Desde então, porém, nunca mais parou de ganhar. Venceu quatro vezes no Japão e duas na Ásia, ganhando um lugar no HSBC Champions de 2007, na China. Triunfou nesse torneio, o mais importante de todo o continente, e viu abrir-se-lhe uma vaga no The Masters. Fez um top 30 em Augusta e conquistou um convite para diversos torneios do PGA Tour 2008. No fim do ano, ainda teve de voltar à Qualifying School, mas em 2009 já era membro de pleno direito do circuito. Desde então, venceu o Honda Classic e, agora, o PGA Championship. É o primeiro homem asiático a ganhar um torneio do Grand Slam, ultrapassando inclusive o compatriota K. J. Choi, o seu melhor amigo no Tour. Um pouco por toda a Ásia, é conhecido por “Son Of The Wind” (ou “Filho do Vento”), em resultado da habilidade para jogar perante a fúria dos elementos. Nos Estados Unidos, chamam-lhe agora “Tiger Killer” (ou “Caça-Tigres”). Dallas, a cidade onde ainda não há muitos meses se instalou com a mulher e os três filhos, recebeu-o na segunda-feira como um herói.
Dizem alguns dos fanáticos de Tiger Woods que o resultado do torneio de domingo é “a maior frustração da história do golfe” desde a derrota de Ben Hogan frente Jack Fleck no US Open de 1955, disputado no Olympic Club, em San Francisco. Defendem todos os restantes que, logo a seguir ao segundo lugar de Tom Watson no British Open de Julho, esta é a melhor história de 2009 – e que, dê por onde der, este já foi um extraordinário ano de golfe. Quem, com um mínimo de bom senso, poderá rebatê-lo?

 

 

Y E. YANG
NOME: Yang Yong-eun
NASCIMENTO: 15 de Janeiro de 1972 em Jeju-do, Coreia do Sul
ESTRUTURA FÍSICA: 1,76 m, 88 kg
PROFISSIONAL DESDE: 1996
CIRCUITOS: Japan Golf Tour e Asian Tour (2002-2006), European Tour (2007) e PGA Tour (2008-?)
VITÓRIAS COMO PROFISSIONAL: 9 (4 no Japan Golf Tour, 2 no Asian Tour, 1 no European Tour e 2 no PGA Tour)
RESULTADOS EM MAJORS: 1 vitória (PGA Championship 2009), 1 T30 (The Masters 2007), 1 T47 (PGA Championship 2005) e 5 falhaços de cut

 

TOP 5

91º PGA CHAMPIONSHIP
Hazeltine National Golf Club, em Chaska (Minnesota)
13-16 de Agosto de 2009

POSIÇÃO     JOGADOR             PAÍS                    RONDAS      FINAL  PAR
1                    Y. E. YANG         Coreia do Sul      73-70-67-70  280      -8
2                    TIGER WOODS    EUA                     67-70-71-75  283      -5
T3                  LEE WESTWOOD Inglaterra            70-72-73-70  285      -3
T3                  RORY MCILROY   Irlanda do Norte 71-73-71-70  285       -3
5                    LUCAS GLOVER   EUA                   71-70-71-74   286       -2

 

DIXIT

“Dormi mal, é verdade. Mas, assim que cheguei ao primeiro tee, voltei a ser eu próprio. Aquilo era o que eu sempre sonhara. Não ia estragar tudo por ficar nervoso. E não fiquei. Juro.”
Y.E. YANG
“Y.E. Yang é um vencedor digno. Vai-se a ver a ronda dele e, tirando o soluço dos três putts no 17, jogou maravilhosamente.”
TIGER WOODS

“Ele simplesmente não tem medo de nada. É um jogador de classe mundial. Não tem nada a perder e não se enerva. Diz que não se enerva e é verdade.”
A.J. MONTECINOS (caddie de Y.E.)

“Se olharmos para a sua carreira, vemos que bateu sempre muito bem na bola. A única coisa que o vinha travando era o putter. E, curiosamente, foi aí que ele me venceu.”
TIGER WOODS

“Tenho o melhor emprego do mundo. Faço o que mais gosto, o que mais amo. Estou a viver o meu sonho todos os dias e, portanto, faço um esforço por vivê-lo sem remorsos ou ressentimentos. Se não resultar, não resultou. Paciência.”
Y.E. YANG

“Acordei de madrugada para ver a transmissão. Ele jogou de uma maneira muito tranquila e, vindo de trás, conseguiu uma extraordinária vitória. É um triunfo muito moralizador para todo o nosso povo.”
LEE MYUNG-BAK (presidente da Coreia do Sul)

“Estou tão feliz e orgulhoso dele... Que mais poderei dizer? Ele atingiu o topo. Agora, só lhe peço que continue a trabalhar para se manter no topo.”
YANG YONG-HYUK (irmão de Y.E.)

“Depois de os hóspedes deixarem o driving range, chegava o Y.E.. E ali ficava a bater bolas durante horas, num range que tinha 50 metros e acabava com uma rede. Rapidamente se destacou de toda a gente. É um predestinado.”
KIM YOUNG-CHAN (director do driving range do Ora Country Club)

“Sempre foi um homem de uma estabilidade emocional a toda a prova. Distinguia-se dos outros jogadores por isso. Está sempre em controlo.”
KIM WON-JUN (treinador de golfe)

FEATURE. J, 23 de Agosto de 2009

 

publicado por JN às 09:18
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Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974. Publicou “O Terceiro Servo” (romance, 2000), "O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002), “Al-Jazeera, Meu Amor” (crónicas, 2003) e “José Mourinho, O Vencedor” (biografia, 2004). Está traduzido em Inglaterra e na Polónia, editado no Brasil e representado em antologias em Espanha, Itália e Brasil, para além de Portugal. Jornalista, tem trabalhado... (saber mais)
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