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06 Setembro 2009

Foi o approach no buraco 2 do jogo de singles, no último dia da competição, que mudou tudo. Convocada como “escolha da capitã” Beth Daniel, Michelle Wie era desde o início o nome mais polémico da edição deste ano da Solheim Cup, disputada há duas semanas no campo de Rich Harvest Farms, em Sugar Grove, no estado americano do Illinois. Na sexta-feira, estivera razoável: em parceria com Morgan Pressel, empatara o seu four ball contra a dupla europeia formada por Catriona Matthew e Maria Hjorth. No sábado, estivera excelente: primeiro, na companhia de Christina Kim, vencera em four ball Helen Alfredsson e Tania Elosegui por um impressionante 5&4; depois, e em parceria com Cristie Kerr, ganhara em foursomes à dupla Anna Nordqvist/Maria Hjorth por 1 up. Por essa altura, já era, de todas as 24 jogadoras em competição, a que mais pontos acumulara (2,5). E, no entanto, muitos ainda duvidavam da legitimidade da sua chamada.

Até que chegou o jogo de singles – e, sobretudo, aquele buraco 2, par 5. Colocada perante a veterana sueca Helen Alfredsson, Michelle Wie abriu com um drive um pouco mais longo do que o da adversária, ganhando o direito a ser a segunda a bater o shot seguinte. Então, e quando estava ainda a mais de 230 metros da bandeira, Alfredsson bateu um ferro longo para uma distância inferior a três metros do buraco. Era a pancada perfeita, capaz de desmoralizar qualquer adversária. Mas Michelle não se deixou atemorizar: pegou também ela num ferro longo e deixou a sua bola mais perto ainda do buraco. Atrapalhada, a sueca falhou o putt para eagle. Confiante, Michelle Wie meteu o seu. Ficava então 1 up – precisamente a mesma vantagem que teria no fim do encontro, garantindo mais um ponto à sua conta pessoal (3,5 no final) e contribuindo decisivamente para a vitória da selecção americana (16-12).
Foi o come back do ano no golfe feminino. Nove anos depois do aparecimento precoce na alta roda do golfe mundial, quatro anos após tornar-se profissional e dois anos passados sobre o ocaso desportivo (embora não comercial), Michelle Wie está de volta. Pelo meio, deixou cair três elementos centrais na sua imagem e na sua actividade. Lembrada recorrentemente de que nunca ganhara nada de importante, preferindo viver como uma estrela de Hollywood à sombra da beleza física e do potencial técnico, começou por abdicar das mini-saias com que chamava a atenção dos fotógrafos e dos editores das revistas masculinas. Já este ano, anunciou que havia deixado a agência William Morris, vocacionada para o agenciamento de estrelas do mundo do espectáculo (e com uma carteira de clientes com nomes como os de Jon Bon Jovi, Leonardo DiCaprio ou Barbra Streisand, entre outros), para assinar contrato com a IMG, centrada no desporto.
Entretanto, deixou igualmente de referir-se tão persistente ao golfe masculino como a sua principal obsessão. E, inevitavelmente, o golfe feminino abriu-lhe os mesmos braços que sempre fechara. “Tenho a certeza de que ganhará um torneio ainda antes do final de 2009”, disse ainda há dias a veterana Julie Inkster, sua colega na equipa americana da Solheim Cup. Retomado o brilho do swing e claramente melhorado o jogo curto, Michelle tem agora aquele que é o maior desafio de sempre da sua carreira: vencer uma competição profissional. E o facto é que toda a América parece finalmente torcer por isso, convencida em definitivo de que não será uma mulher a ameaçar o reinado absoluto de Tiger Woods – e de que, de resto, Michelle nem sequer terá de ser uma versão feminina de Woods para ser a melhor jogadora do mundo.

Nascida em Honolulu, no Havai, Michelle Wie é filha de um casal coreano de classe média-alta: BJ Wie, professor universitário, e Bo Wie, antiga campeã nacional amadora de golfe da Coreia de Sul. Começou a jogar aos quatro anos, altura em que já batia a bola a mais de 90 metros de distância. Aos dez, colocou-se no mapa, ao tentar qualificar-se para o torneio sénior masculino Sony Open, habitualmente o segundo evento da temporada no PGA Tour. Ficou aquém do apuramento, acabando a ronda de qualificação com 84 pancadas, mas dominou as atenções. Nunca mais alguém deixaria de ouvir falar dela – e mais inevitável ainda se tornou essa conclusão quando, pouco depois, Wie se transformou na pessoa (rapariga ou rapaz) mais nova de sempre a classificar-se para um torneio sénior masculino da USGA, no caso o US Amateur Amateur Public Links Championship.
Quando chegou aos 12 anos, Michelle já tinha crescido para além dos 1,80 m, batendo frequentemente o driver acima dos 250 m. Tom Lehman, vencedor do British Open de 1996, passou pelo Havai, viu-a jogar e deu-lhe a alcunha de “The Big Wiesy” (trocadilho com a alcunha do sul-africano Ernie Els, de swing suavíssimo e enormes distâncias). E a miúda não o decepcionaria. Em 2002, e ainda com 12 anos, tornou-se na mulher mais jovem de sempre a qualificar-se para um torneio do LPGA, o Takefuji Classic, onde falhou o cut mas tornou a concentrar as atenções. Entretanto, dois outros brilharetes (nova tentativa de qualificação para o Sony Open, desta vez com um 47º lugar entre os 96 candidatos, e um extraordinário 9º lugar no major Kraft Nabisco Championship) fizeram o resto: Michelle tornava-se no mais sonante jovem prodígio da história do golfe, suplantando mesmo Tiger Woods.
O ano de 2003 foi excelente para ela. Com 13 anos e sucessivas isenções dos patrocinadores, Wie jogou uma série de eventos do LPGA e fez o cut em quase todos. Obcecada com a ideia de defrontar os homens, jogou ainda dois torneios masculinos, embora não tenha passado o cut em nenhum deles. Entretanto, ganhou aquele que foi o seu primeiro grande título: o Women’s Public Links Championship, que ninguém na sua idade havia vencido. E o sucesso prolongou-se por 2004, ano em que, sempre como amadora, jogou finalmente o masculino Sony Open (falhando o cut por apenas uma pancada, depois de fazer o par do campo nos dois primeiros dias), disputou até ao fim a vitória num torneio do LPGA (o predilecto Kraft Nabisco, que terminou em quarto lugar) e teve uma excelente prestação no US Women’s Open.
Em 2005, chegou a uma encruzilhada. Embora não se tenha saído tão bem como no ano anterior no Sony Open, que voltou a disputar com isenção dos patrocinadores, foi jogar o John Deere Classic (também do masculino PGA) e apenas falhou o cut no último buraco. Entretanto, chegou aos quartos-de-final do Public Links, de novo apenas contra homens, e começou a acumular excelentes resultados no LPGA, incluindo um segundo lugar no major LPGA Championship, atrás apenas de Annika Sorenstam. E, então, decidiu tornar-se profissional, no que poderá ter sido a pior porque precoce) decisão da sua ainda curtíssima carreira. Decisão imposta, naturalmente, pela enorme entourage que já então a rodeava, começando pelo pai, passando pelo treinador, pelo psicólogo e pelo agente, Jesse Derris, ex-porta voz de John Kerry e Howard Dean (candidatos democratas à Casa Branca) e novo colaborador da William Morris para a área do golfe.

Michelle Wie ganhou milhões com a passagem a profissional. Só da Nike e da Sony, vinham dez milhões de dólares de receitas anuais em patrocínios. E, se as coisas não correram muito bem no seu primeiro evento como profissional (o Samsung World Championship, em que foi desclassificada depois de um drop mal feito), a verdade é que, durante um ano, quase tudo o resto lhe correu bem, com sucessivos top 10 no LPGA e, enfim, o primeiro cut num torneio masculino (o SK Telecom, do Asian Tour), feito antes apenas conseguido pela coreana Se Ri Pak. Jovem, bonita e consciente do imenso potencial de marketing das suas longas pernas, que exibia sob curtíssimas mini-saias ou apertadas em justíssimos calções, Michelle estava então no topo do mundo. Mas nunca procurou o estatuto de membro da LPGA – e simplesmente não encontrou rede quando apareceram as derrotas, as lesões e as demais frustrações típicas de uma desportista em início de carreira.
Foram quase dois anos de ocaso. Primeiro nas competições masculinas, onde começou a acumular últimos lugares sobre últimos lugares. Depois, nas competições femininas também. Finalmente, na edição 2007 do Ginn Tribute Hosted By Annika, Wie bateu no fundo. Após uma longa série de más prestações, a jovem chegava ao fim do buraco 16 da primeira ronda com um total de 16 pancadas acima do par. Terminasse o dia com 88 pancadas ou mais e, na qualidade de uma não-membro da LPGA a jogar o torneio a convite dos patrocinadores, seria banida de todas e quaisquer provas do circuito durante dois anos. A certa altura, o pai, presente nas bancadas, chamou-a à parte. Os dois conferenciaram por instantes, numa conversa a que entretanto se juntaram também o caddie, a agente, o treinador, o médico e o psicólogo da jogadora. E, dali a instantes, a decisão era anunciada: Michelle Wie ressentira-se da lesão num pulso e tinha, portanto, de desistir.
Podia ter sido um importante toque a reunir, mas não foi. Ao todo, e durante mais cerca de um ano, Wie apenas bateu o par de um campo duas vezes. Mesmo nas competições femininas, falhou imensos cuts – e, quando não os falhava, acabava nas últimas posições dentro do cut. Entre o Verão de 2007 e o Verão de 2008, em que teve ainda de dividir as atenções entre o golfe e a faculdade (entretanto entrara para Stanford, a mesma universidade de Tiger Woods), não ganhou mais de 30 mil dólares em prize money. Até desqualificações em resultado da não assinatura do cartão de jogo lhe aconteceram. E só então começou a ser colocado em prática o plano que a traria de volta ao golfe: aquele em que o pai e o treinador e o psicólogo e toda o restante séquito assumiam em definitivo que o futuro da criança-prodígio passava por ser uma atleta, não uma estrela de cinema.
Para os que acompanham diariamente o mundo do golfe, é como se Michelle já aí andasse há uma eternidade. O facto é que está ainda a um mês de fazer 20 anos. Entretanto, e depois de ganho finalmente o cartão do LPGA Tour (com humildade, percorrendo todas as etapas de qualificação), a jogadora conquistou cinco top-10 nos seus primeiros 13 torneios da temporada, com mais de meio milhão de dólares acumulados em prize money e um confortável 17º lugar na ordem de mérito feminina americana, correspondente à 24ª posição no ranking mundial. Se esta paz durará muito, não se sabe. “No fundo, ela nunca deixou de ser um génio”, escreveu há dias o editorialista de golfe Peter Dixon, no “The Times”. “Deixem-na vencer um torneio e verão como o monstro explode outra vez. Nessa altura se verá o que ela cresceu. Ela e o seu querido paizinho.” Para já, e nas bancadas do LPGA Tour, vai-se entretanto gritando: “Yes Wie Can!”

 

 

MICHELLE WIE
NOME COMPLETO: Michelle Sung Wie
NASCIMENTO: 11 de Outubro de 1989, em Honolulu, no Havai (EUA)
ESTRUTURA FÍSICA: 1,85 m, 76 kg
PROFISSIONAL DESDE: 2005
PATROCINADORES: Nike e Sony
ALCUNHA: The Big Wiesy
VITÓRIAS COMO PROFISSIONAL: Solheim Cup 2009 (vitória colectiva)
PRESTAÇÃO NO GRAND SLAM: um 2º lugar (LPGA Championship 2005) e três T3 (Kraft Nabisco Championship 2006; US Women’s Open 2006; Women’s British Open 2005).
PRÉMIOS E DISTINÇÕES: Laureus World para a Revelação do Ano 2004; inclusão na lista das “100 Pessoas Que Moldam o Nosso Mundo”, elaborada pela revista Time em 2006

publicado por JN às 22:00
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Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974. Publicou “O Terceiro Servo” (romance, 2000), "O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002), “Al-Jazeera, Meu Amor” (crónicas, 2003) e “José Mourinho, O Vencedor” (biografia, 2004). Está traduzido em Inglaterra e na Polónia, editado no Brasil e representado em antologias em Espanha, Itália e Brasil, para além de Portugal. Jornalista, tem trabalhado... (saber mais)
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