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17 Outubro 2009

A primeira vez que me interessei pela biografia de Anton Haig, sul-africano, foi ontem, passava já das seis da tarde. Para mim, ele era só mais um rosto na multidão – apenas mais um nome entre tantos, apesar da épica vitória no Johnnie Walker Classic de 2007, de que ainda me lembrava vagamente. Entretanto, fiquei especialista. Porque eu estava a meio do buraco 9 quando, já o dia declinava e o público se concentrara atrás dos heróis da tarde (Harrington, Schwartzel, Westwood), ele meteu a bola no rough da esquerda, momentaneamente sem spotter. Porque eu acompanhei as três ou quatro almas penadas que acorreram em seu socorro, ajudando-o a procurá-la junto com os marshalls que entretanto reuniram para tentar evitar o desastre. E porque eu testemunhei o seu fracasso e o seu regresso à tee box, de ombros caídos, para bater uma segunda bola.

Era o seu último buraco do dia – e seria também o seu último buraco neste torneio. Um bogey ter-lhe-ia bastado para passar o cut; o triplo com que acabou mandou-o para casa mais cedo. Nada a que Haig não esteja habituado, diga-se: vencedor do dito Johnnie Walker de 2007, ele já não vencera qualquer torneio em 2008 – e neste ano de 2009 não passara mais de quatro cuts, acumulando pouco mais de 22 mil euros. Actual número 244 da money list do European Tour, está agora na iminência de regressar ao Challenge Tour. Tudo bem: tem apenas 23 anos – e, como acaba de acontecer com Filipe Lima, talvez o Challenge o reposicione do ponto de vista competitivo. E, no entanto, houve aquela bola. Aquela bola perdida num rough este ano muito mais curto do que o de 2008 – e no exacto instante em que o spotter fora à casa de banho (ou coisa que o valha).
Perder uma bola é o momento mais frustrante de um jogo de golfe – e é também, às vezes, o mais poético. Na verdade, podia escrever-se um romance inteiro apenas com aquele instante em que, depois de vários buracos a lutar contra a adversidade e de deduzir que um simples bogey chega para salvar um dia, uma semana, um ano inteiro, um jogador percebe que acertou mal na bola e sente abrir-se-lhe um alçapão sob os pés, ficando depois, durante dez longuíssimos segundos, a contemplar aquele voo errático para além da vida e da morte, em direcção a um lago, a uma ravina ou a um rough glutão. Talvez ninguém escreva esse romance – e ninguém, de certeza, o escreverá a propósito de Anton Haig. Mas eu achei que devia dedicar-lhe ao menos uma crónica. Eu, porteiro de alçapões, estive com ele em cada um daqueles dez segundos.

ESPECIAL III PORTUGAL MASTERS. O Jogo, 17 de Outubro de 2009

publicado por JN às 11:12

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joel neto

Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974. Publicou “O Terceiro Servo” (romance, 2000), "O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002), “Al-Jazeera, Meu Amor” (crónicas, 2003) e “José Mourinho, O Vencedor” (biografia, 2004). Está traduzido em Inglaterra e na Polónia, editado no Brasil e representado em antologias em Espanha, Itália e Brasil, para além de Portugal. Jornalista, tem trabalhado... (saber mais)
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