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01 Outubro 2009

Contada pelo André, já a noite se fechava, a história era tão diferente que dificilmente parecia a mesma a que eu assistira (e até, de alguma forma, protagonizara). Regressávamos de automóvel, eu depois de um torneio em que jogara mal e ele ao fim de cinco horas a vaguear pelo campo, assistindo aos nossos swings trôpegos, e de outras duas de prolongado almoço na companhia da malta toda. Estava interessado no jogo e decidira, como uma esposa diligente, acompanhar-me à Aroeira. Surpreendentemente, não se aborrecera. Mas a impressão com que ficara sobre esse interminável buraco 19 era tão distinta daquela que eu conservava que quase parecia não tratar-se do mesmo almoço.

“Mas são todos assim egocêntricos, os golfistas?”, perguntou-me. Estive para zangar-me, mas decidi respeitar a coragem: num país com os transportes públicos que Portugal tem, um tipo só arrisca mandar bocas ao pé da Fonte da Telha se tiver a certeza absoluta daquilo que diz. “Quer dizer: chega-se ao fim e está tudo louco por contar a sua ronda toda, pancadinha a pancadinha”, explicou. “A certa altura, há um que diz que fez birdie no 11 e logo os outros todos correm a dizer o que fizeram no 11 – como fizeram, onde estava a bola e em que bateu e como caiu no copo. Se um diz que lhe dói um braço, começa tudo a dizer o que lhe dói. Se um se queixa do sol, o outro queixa-se do vento – que esse, sim, lhe estragou o jogo. Está tudo a falar para dentro, no fundo. E parece que aquela cerveja só serve para reunir ideias que permitam falar ainda mais para dentro.”
Tive de dar a mão à palmatória: nós, golfistas, somos efectivamente uns egocêntricos inssuportáveis. Ainda aqui há uns dias um amigo meu fez um hole-in-one – e, embora nos esforçássemos por ouvir o seu relato, ali ficámos todos, a olhar para a bandeira do 4, tentando falar primeiro do que ele e explicando como é que não tínhamos nós próprios feito um hole-in-one. E talvez seja essa, na verdade, a nossa grande fragilidade. “Kill your ego for better golf”, anunciam os prospectos de inúmeras clínicas americanas. “São as más decisões que dão cabo do seu golfe. Você passa a vida a jogar o driver onde não devia jogar o driver, a tentar chegar ao green a que nunca conseguirá chegar, a fazer o pitching que não sabe fazer. Está a deixar que o ego dê cabo de si. Domine-o. Aniquile-o. Sem ego, você será finalmente um grande golfista. Não tente ser o jogador que não é”, explicam, por estas ou por outras palavras.
E eu começo a achar que estão erradas. O golfe é muito mais do que aqueles sete quilómetros a bater com um pau numa bola – e, por muito importante que isso seja, é também muito mais do que o número de vezes que é preciso bater com o pau na bola até, enfim, acabar de percorrer os sete quilómetros. O golfe é também uma “ego trip” – uma viagem egocêntrica. É um teste à nossa habilidade, à nossa agilidade, à nossa capacidade de concentração – e nesse sentido, talvez tenhamos vantagens em não pensar em nenhuma delas, nem na habilidade, nem na agilidade, nem na capacidade de concentração, sob pena de as querermos de mais. Há que reduzir o desejo – há que reduzir o desejo sempre. Mas não esmagá-lo. Não aniquilá-lo. Não exterminá-lo. Bem maltratado anda já o nosso desejo, com toda esta crise, toda esta mentira e todo este imposto. Bem maltratado anda já o nosso ego. E de pouco serviria o golfe se não fosse também o espaço onde, ainda que apenas durante uma manhã por semana, podemos pensar em nós – só em nós e em mais nada.
Se, num buraco 19, vejo alguém a ouvir pacientemente o relato de toda a gente, com interesse e curiosidade (e sem sequer esboçar um relato próprio), tenho logo pena dele. Pessoas sem ego podem jogar regularmente na casa das setenta pancadas, podem até fazer abaixo do par do campo: a verdade é que nunca gozarão um resultado com a alegria e o despojamento de um egocêntrico cuja masculinidade está em jogo, todos os sábados, ao longo daqueles 18 buracos. Pior: pessoas sem ego podem cair no lago do 18 ou não conseguir sair do bunker do 17 ou perder a bola no mato do 16, destruindo com um só shot mal batido toda uma tarde de perfeição: de maneira nenhuma gozarão esse fracasso como ele deve ser gozado – com a tristeza e com a revolta, com a mágoa e com a lamúria que ele deve ser gozado.
André, felizmente, persistiu no jogo. Da última vez que jogámos juntos, já ia em handicap 22 – e, quando chegámos à club house, mais ninguém conseguia falar senão ele, gabando-se do facto de ter, finalmente, conseguido jogar abaixo das 90. É um egocêntrico, claro. Fico feliz por ele.

CRÓNICA DE GOLFE ("Tee Time"). Jornal do Golfe, Outubro de 2009

publicado por JN às 11:31

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Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974. Publicou “O Terceiro Servo” (romance, 2000), "O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002), “Al-Jazeera, Meu Amor” (crónicas, 2003) e “José Mourinho, O Vencedor” (biografia, 2004). Está traduzido em Inglaterra e na Polónia, editado no Brasil e representado em antologias em Espanha, Itália e Brasil, para além de Portugal. Jornalista, tem trabalhado... (saber mais)
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