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01 Novembro 2009

“O swing de golfe é como uma mala em que constantemente tentamos enfiar uma coisa mais do que aquelas que ela comporta”, dizia John Updike – e quase sempre tem razão. Mas um dia há em que essa mala como que estica, ajustando-se na perfeição àquilo que queremos lá meter – e então duas coisas são certas. A primeira é que não esqueceremos nunca esse dia. A segunda é que, depois disso, demoraremos muito tempo até voltarmos a recordar-nos de como fizemos para ajustar o seu espaço às nossas necessidades. Do que fizemos para esticá-la, de como conseguimos acondicionar nela todos os objectos de que precisávamos – de como nos foi possível, afinal, manter em razoável harmonia, durante aquelas quatro horas, tudo aquilo que vamos respigando e esquecendo e recordando e tornando a perder ao longo de meses de treino e de suor, de sangue e de lágrimas, de euforias e de desistências e de novas euforias e de novas desistências e de novas euforias ainda.

Aconteceu-me no novo campo do Laranjal, na Quinta do Lago – e eu gosto de acreditar que o lugar não é inocente. Se há algum arquitecto de golfe de que gosto sempre, é de Jorge Santana da Silva – e o Laranjal não é apenas mais uma das suas obras: é talvez a mais bela até ao momento. Limitado no espaço, Jorge Santana conseguiu na mesma criar um longo e desafiante championship, cheio de convites à ousadia e de implacáveis armadilhas. Limitado na flora (pelo menos em comparação, por exemplo, com Amarante ou Viseu), conseguiu na mesma criar um belíssimo jardim, sedutor e sumptuoso, como se cada buraco fosse a misteriosa antecâmara do seguinte – e percorrê-los todos seguidos como que viajar pela tragicomédia de Dante, incluindo os nove círculos do Inferno e os nove céus do Paraíso (e algures, já se sabe, as montanhas do Purgatório, os pântanos e as rosas poéticas, os ventos e as tempestades, os anjos e a própria Beatriz).
Pois, a mim, deu-me Paraíso. Eu estava com o Ramiro, acabadinho de jogar o Pro-Am do Portugal Masters na formação de Retief Goosen – e tinha o ego desfeito. Privilegiado com a oportunidade de jogar ao lado de um dos maiores golfistas do mundo (falo do Retief), havia conseguido fazer tudo o que não se faz: slices e hooks, shanks e tops, triplos putts e duplos bogeys – e, enfim, um resultado que me abstenho de reproduzir aqui, tanto por vergonha como por causa do limite de caracteres. Basicamente, visitar o Laranjal, que eu nunca sequer tinha visto antes, era como subir para cima do cavalo outra vez – e, entretanto, dar um passeio por lugares desconhecidos, a ver se me distraía (e, se algures lá para um dos buracos do fundo se abrisse um alçapão e a terra me engolisse, pois paciência, a verdade é que eu não merecia viver). Naturalmente (agora acendam as luzes de Alerta Gabarolice, por favor), fiz o jogo da minha vida. Reduzido o desejo ao mínimo, quase não falhei um shot, fiz birdie nos par 5 quase todos, salvei pars com up-and-downs milagrosos e saí de cena com um 77 que, ao fim de três anos de golfe, e tratando-se de um campo novo, vale a pena inscrever a marcador grosso na bola de jogo e guardá-la a esta na estante, ao pé dos outros troféus de consolação.
E, no entanto, nunca mais, desde esse dia, acertei um shot. Minto: dois dias depois, no Pro-Press do Masters, das marcas de competição e com o setup do último dia do torneio oficial, ainda fiz bons dois terços de ronda, com muitos greens in regulations e oito pars. Mas o putting abandonou-me nesse segundo dia do Victoria – e, desde então, venho-me arrastando penosamente pelos campos de Lisboa, regressado aos slices e aos hooks, aos shanks e aos tops, aos triplos putts e aos duplos bogeys como se, na verdade, fossem eles a minha natureza. Às vezes ocorre-me: “E se voltasses ao Laranjal? E se fosses ao Montado, ao Montebelo, a Amarante – e se voltasses a um campo de Santana da Silva, à procura dos tercetos de Dante, dos três versos da sua estrofe (como as pancadas de um birdie), dos 33 cantos das suas partes (como o resultado de um bom nine)?”
Não resultaria. “O swing de golfe é como uma mala em que constantemente tentamos enfiar uma coisa mais do que aquelas que ela comporta”, dizia John Updike. Quase sempre é verdade – e, quando não o é, nunca somos nós a decidi-lo. Afinal, é no Purgatório que o barqueiro Caronte encontra Beatriz – e o máximo a que todos nós, amadores ou profissionais, podemos aspirar como morada definitiva é esse sensabor meio termo entre o Inferno e o Paraíso. Simplesmente, às vezes descemos ao limbo, com o que devemos recordar-nos da nossa pequenez; e outras acercamo-nos das portas do céu, com o que temos necessariamente de tornar a convencer-nos de que existe em nós mais golfe do que aquele que conhecemos. Este jogo é assim mesmo: há uma cenoura que caminha à nossa frente, suspensa como um chamariz – e, se às vezes lhe tocamos com um lábio, aproveitando os balanços da caminhada, já não é mau. O resto é paciência e capacidade de sofrer – e, no fim, paz à nossa alma.

CRÓNICA DE GOLFE ("Tee Time"). Jornal do Golfe, Novembro de 2009

 

publicado por JN às 08:57

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Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974. Publicou “O Terceiro Servo” (romance, 2000), "O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002), “Al-Jazeera, Meu Amor” (crónicas, 2003) e “José Mourinho, O Vencedor” (biografia, 2004). Está traduzido em Inglaterra e na Polónia, editado no Brasil e representado em antologias em Espanha, Itália e Brasil, para além de Portugal. Jornalista, tem trabalhado... (saber mais)
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