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20 Dezembro 2009

Era “um projecto arrojado e um desafio difícil, impensável para muitos e financeiramente quase impossível”, como sublinhou António Manuel Rodrigues na cerimónia de inauguração, a 13 de Setembro. E, porém, aí está ele. Três anos depois de a Unicer ter encerrado para remodelações o histórico campo de nove buracos do Palace Hotel, em Vidago, os sócios do Clube de Golfe de Vidago cansaram-se de esperar pela reabertura e avançaram com a construção do seu próprio campo. Proprietários da região arrendaram a baixo preço cerca de 16 hectares de terreno, os Bombeiros Voluntários locais trouxeram mais de um milhão de litros de água, a Câmara Municipal de Chaves e a Junta de Freguesia da Oura cederam alguma mão-de-obra, sócios e amigos de sócios emprestaram tractores e retro-escavadoras, quem não tinha outra coisa levou enxadas, pás, gadanhas, foices, carrinhos-de-mão – e, quase como se estivéssemos na Saint Andrews do século XVIII, em menos de seis meses já se jogava nos montes de Camba, cerca de três quilómetros a sudeste do centro de Vidago, entre os lugares de Vila Verde e Vila do Conde.
Para já, são apenas seis buracos. Mas “o sonho comanda a vida”, insiste Rodrigues, presidente do clube – e no próximo Verão deverão estar prontos mais três, mudando por completo o actual cartão de jogo. O céu, por esta altura, é o limite. E, quando se põe a pensar no futuro, António Rodrigues imagina mesmo um traçado de 12 buracos (quem sabe até de 18) com uma pequena urbanização de permeio, permitindo ao clube as receitas necessárias à manutenção de um campo de qualidade. Para isso, acaba de submeter ao Programa de Desenvolvimento Regional (vulgo Proder), e munindo-se das declarações de interesse público e turístico emitidas pela Câmara Municipal de Chaves e pelo Turismo do Porto e Norte de Portugal, o pedido de um subsídio no valor de 300 mil euros, destinado a ampliar o projecto e a melhorar o que já está feito, incluindo os greens, os bunkers, os acessos entre buracos, o fornecimento de água e a própria vegetação.
“Não posso dizer que, se não fosse este campo, o golfe em Vidago tinha acabado. A tradição da modalidade aqui na freguesia, e no concelho de Chaves em geral, é antiga e enraizada”, diz. “Mas a situação estava a tornar-se cada vez mais frustrante para mais de uma centena de jogadores que, apaixonados por este jogo, se dispunham a viajar regularmente entre Vidago e Amarante, numa distância de mais de 70 quilómetros para cada lado, só para poderem jogar.” Hoje, quem visita o campo do Clube de Golfe de Vidago, ao fim de uma curta e diversificada viagem sobre alcatrão e terra batida, entre azevinhos ancestrais e plátanos (por esta altura) com folhas de todas as cores, encontra o campo povoado por dezenas de pessoas que se empenham em, antes que a noite caia, percorrer três vezes os seus seis buracos, a subir e a descer, lutando com um par 69 dificultado pela falta de maturidade dos greens e pela incompletude dos fairways (naturais por esta altura), mas vagamente compensado pela relativa acessibilidade das distâncias. Ao fim de dois meses, nenhum dos 140 sócios, incluindo cerca de dez one-digit handicap, havia superado o par do campo.
Com menos de 1200 habitantes, Vidago tem golfe desde 1936, altura em que, no âmbito do Vidago Palace Hotel, um quatro estrelas inaugurado em 1910 para receber a aristocracia que procurava a região pela qualidade das suas termas, foi criado um campo de nove buracos. Ao longo de décadas, a prática da modalidade esteve vedada às classes média e média baixa da região, cujos rapazes apenas podiam aspirar ao papel de caddies. “Éramos doidos pelo golfe, mas não podíamos jogar. Às vezes, quando os jogadores se distraíam, dávamos uma pancadinha às escondidas. Mas jogávamos principalmente no campo da bola e no lameiro que havia ao lado, usando tacos artesanais em ‘lailante’ [ou ailanto, madeira comum em Trás Os Montes]”, conta Armando Portelinha, hoje com 59 anos e handicap 6. Felizmente para ele, como para outros, um certo Mário Rodrigues decidiu avançar, em 1969, com a criação de um clube, de forma a interceder pelos interesses dos locais junto da empresa Vidago, Melgaço e Pedras Salgadas, proprietária do hotel. “Mesmo assim, só depois do 25 de Abril pudemos jogar à vontade. Não foi fácil”, recorda Portelinha, percorrendo entretanto algumas das conquistas que fizeram dele um dos melhores jogadores da história de Vidago (o que não é dizer pouco, tendo em conta os vários campeonatos nacionais e as múltiplas chamadas à selecção contabilizadas entre os golfistas transmontanos).
Pois foi a esses voluntariosos jogadores que o hotel ficou a dever, durante anos, a manutenção do seu campo, que de outra forma teria sido consumido da vegetação. E foram esses jogadores locais que, com a transformação do recinto em campo comercial, passaram a temer ficar sem lugar para jogar. “Naquela altura, já tínhamos apenas, nós clube, um protocolo com o hotel para a utilização do campo. Quando ele acabou, em 31 de Dezembro de 2006, fomos informados de que o campo fechava automaticamente para ampliação, o que nos pareceu prematuro e estratégico, porque as obras apenas começaram em Março de 2009, quase dois anos e meio depois – e porque, durante todo aquele tempo, o campo esteve ali ao abandono, com a vegetação a crescer desregradamente”, explica António Rodrigues. A solução foi, então, um protocolo com o campo do Amarante Golf Clube, no Baixo Tâmega. “Mas nem toda a gente podia deslocar-se a Amarante e, como continuávamos (e continuamos) sem qualquer informação da parte da empresa proprietária do Palace sobre o campo do hotel, fomos ficando cada vez mais inquietos. Eu especialmente, pois tinha-me tornado presidente do clube precisamente nesse ano. A certa altura, passei aqui, vi este terreno, comecei a magicar – e, pronto, convenci as pessoas e avançámos.”
O terreno inicial tinha cinco hectares e destinava-se à criação de um driving range, com quatro buracos rurais em anexo. Mas o entusiasmo geral foi tão grande que o terreno cresceu quase automaticamente para 16 hectares (incluindo opção de compra) e o campo para seis buracos – tudo sem projecto, tudo feito de forma intuitiva. Ao todo, e entre directores e sócios, mais de vinte pessoas participaram nos trabalhos. “Mas houve muitas mais. Amigos, voluntários, cidadãos locais – era uma freguesia inteira mobilizada para isto. Foram, de facto, seis meses fantásticos”, diz António Rodrigues. Limpeza, modelação, sementeira, rega automática, manutenção – nada foi deixado ao acaso. Resultado: o único campo português propriedade de um clube – e, naturalmente, o único clube português que tem o seu próprio campo. O orçamento, diz o presidente, é inquantificável. “Houve muitos favores. Não dá para fazer as contas”, frisa. A Câmara de Chaves atribuiu pequenos subsídios, mas foi-se quase tudo na compra das sementes e na encomenda de areias da Póvoa de Varzim, entre outros fornecimentos. Um emigrante na Alemanha ofereceu uma máquina de manutenção. O resto tem sido devoção, tenacidade – e um comovente amor ao golfe e à terra, bem testemunhado pela simpática club-house construída a partir da ruína de um armazém de alfaias agrícolas.
A inauguração ocorreu precisamente a data do 40º aniversário do clube, numa cerimónia que contou com a presença da Manuel Agrellos, presidente da Federação Portuguesa de Golfe (que, apesar das estacas e das placas informativas artesanais, oficializou e classificou o campo em tempo recorde). E a convicção que fica, para quem ouve alguns daqueles homens, é que se operou um milagre pela salvação da modalidade em Trás Os Montes (ou, pelo menos, entre os transmontanos). “Não somos todos pobres. Há aqui pessoas de todas as origens socio-económicas. Mas há muitas pessoas modestas. Eu, por exemplo, toda a minha vida ganhei o ordenado mínimo como empregado de comércio e, depois, operador de empilhadora – e, quando me tornei profissional, em 1996, foi para ganhar ao biscate”, conta Sebastião Aguiar, outro dos multi-campeões locais (incluindo o Campeonato Nacional Interclubes de 1986, a coroa de glória de Vidago) e o actual profissional do campo. “Muitas pessoas podiam ter deixado de jogar golfe ao longo deste processo, até por receio de não vir a poder suportar os greenfees do campo do hotel. E é fantástico vê-los agora aí, num campo que fizeram (que fizemos todos) com as próprias mãos.” A quota de sócio do clube é de apenas 240 euros por ano, permitindo utilização ilimitada do campo. Para já, qualquer visitante terá de pagar vinte euros por três voltas de seis buracos, mas é-lhe sempre explicado que está a contribuir para despesas exigentes.
Para o próximo ano, em que o Palace Hotel completa o seu centenário, fica reservada a reinauguração do hotel (com intervenção de Siza Vieira) e do velho campo de MacKenzie Ross, agora com 18 buracos (com intervenção da empresa de design Cameron&Powell, a mesma que interveio nos melhoramentos, entre outros, do campo açoriano das Furnas, igualmente desenhado por McKenzie Ross). A Unicer prometeu desde sempre um projecto em grande – e, embora a data de conclusão das obras ainda não esteja oficialmente anunciada, quem se passeia pelas imediações do Palace fica com a clara ideia de que a promessa será cumprida. Apesar de a gestão desse campo estar destinada a uma empresa francesa, António Rodrigues tem esperança numa reaproximação entre o clube e o hotel. “Estamos abertos a recuperar o protocolo que tínhamos, ou mesmo a negociar um diferente. Mas, entretanto, não ficamos dependentes disso. Até porque pretendemos fomentar a prática do golfe entre os mais novos, para promover a renovação de gerações – e é-nos muito útil termos a nossa própria infra-estrutura.” Ao longo do Verão, mais de 300 crianças e adolescentes da região (e até da vizinha Espanha) passaram pelo novo campo do Clube de Golfe de Vidago. Mas, quando se pergunta a Sebastião Aguiar quem é a maior promessa entre os seus alunos mais jovens, a resposta é elucidativa: “Não se pode dizer que haja uma promessa. Não temos ninguém de grande nível.”

REPORTAGEM. J, 20 de DEZEMBRO de 2009

publicado por JN às 23:11

caro joel

Haverá alguma coisa que os portugueses consigam fazer que não necessite do inevitável subsídio?
É muito triste
jorge espinha a 22 de Dezembro de 2009 às 15:26

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joel neto

Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974. Publicou “O Terceiro Servo” (romance, 2000), "O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002), “Al-Jazeera, Meu Amor” (crónicas, 2003) e “José Mourinho, O Vencedor” (biografia, 2004). Está traduzido em Inglaterra e na Polónia, editado no Brasil e representado em antologias em Espanha, Itália e Brasil, para além de Portugal. Jornalista, tem trabalhado... (saber mais)
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